opinião

Amores que só trilham… “tanto queimam como atrasam”

Ruy Ribeiro Moraes Cruz - Psicólogo CRP 22-00582, Advogado OAB/MA 27106, Mestre em Gestão, Trabalho, Educação e Saúde pela UFRN

Em umas das canções do maior compositor maranhense, João do Vale, uma viagem de trem entre duas capitais, Teresina-Piauí a São Luís-Maranhão, apresenta um verso que chama a atenção por representar a precarização das relações afetivas que tanto queimam como atrasam a vida de uma, duas ou mais pessoas. Nesta analogia, contamos entrar em um trem, que segue um traslado em cima de trilhos de cidade em cidade e, encontramos pessoas que nos relacionamos que não atam nem desatam, convivem “a-ver-achados” na angústia que tanto faz sofrer e se sentir perdidos, pois gastam muita energia jogando lenha, para aquecer um elo que logo se torna brasas que pouco suprem as carências emocionais, que nos levam as “brenhas”, situações complicadas ou confusas.

Afirmo isso, pois neste trilhar “fazendo lenha e soltando brasas, soltando brasas e jogando lenha” não assumimos a responsabilidade do maquinista em conduzirmos nossos destinos pelas estações, permanecemos desatentos ao que realmente importa, seguimos distraídos e alienados, dando voltas em círculos.

No cotidiano, por ser psicólogo e advogado diante dos amigos, sou solicitado a assumir o papel de conselheiro amoroso e convidado a escutar e opinar sobre as “novelas”, “reels” e dilemas que recriam ciclos viciosos que se repetem de forma previsível para um bom observador que vê os fatos de fora.

Mas como superar ou ressignificar tais relações que se reprisam, simulando um brinquedo de ferrorama?

Há quem explique que tais paixões “ressurgem das cinzas”, mas creio que oportunizam o ressuscitar em forma de pó, a busca por nossa essência, que não deveria ser pelos olhos do outro e sim pelo autoconhecimento.

A psicanalista Maria Homem nos ajuda a compreender que a vida é como uma espiral ascendente, onde a dependência emocional tem como base a imaturidade psíquica, que torna a razão uma má companhia da emoção frente ao discernimento do melhor a ser feito. Ela aduz que, ao nos apegarmos com os traumas anteriores, pouco nos preparamos a lidar com o inevitável.

No consultório transmito que o autoconhecimento implicado do paciente, se traduz no desenvolvimento de novos hábitos, comportamentos congruentes e libertadores, dentre eles cito as expectativas criadas que se perderam ou morreram, ou seja, contribuo na reflexão do que é benéfico e viável restaurar dentre os laços rompidos, em prol de bons repertórios e arcabouços.

Assim como é saudável viver o luto, e sofrido manter o insustentável, mesmo que crônico, relutar e guardar mágoas do que se reconhece, comportamento semelhante aos colecionadores e aos acumuladores.

Em outra música, ‘Encontros e Despedidas’, dos compositores Fernando Brant e Milton Nascimento, com linda interpretação feita por Maria Rita, a metáfora da vida é a estação onde o trem perpassa, ora para e ora segue, e nos faz experimentar, tendo esse “lugar” de espera e repetição, pois “tem gente que vem e quer voltar, gente que vai e quer ficar, tem gente a sorrir e a chorar”…

E assim, creio que precisamos entender que somos em essência a chegada e partida, mas não podemos viver “os dois lados da mesma viagem”, devemos sim assumir a responsabilidade das nossas decisões e as consequências das nossas frustrações, já que “a hora do encontro é também despedida”.

Afirmo que a psicoterapia torna-se a melhor estratégia para lidar com “a dor do coração” de João do Vale ao invés de afogar as mágoas ao sentir o desgosto de não poder partir sem ter planos, e tampouco não poder voltar quando se quer, como canta Maria Rita. Por fim, é preciso ter coragem de arriscar, descarrilhar e desatinar os movimentos vazios de propósitos, onde a carência das notícias do mundo do outro, ou a falta de um abraço apertado, venha logo a ser surpreendida com a capacidade de resistir e ter a propriedade da resiliência, de si amar independente dos encontros e desencontros com os outros, mas não de si mesmo.