direitos fundamentais

A sociedade, a insanidade e as feras

Ruy Cruz - Psicólogo, advogado, Mestre em gestão, trabalho, educação e saúde

A sociedade vem demonstrando “prazer” ao assistir à violação de direitos das minorias e vulneráveis, seja a população em situação de rua, indígenas, homoafetivos, travestis, profissionais do sexo e dos jovens negros considerados degenerados e perigosos.

Recentemente viralizou o fato inusitado ocorrido na Paraíba, em que uma leoa foi importunada por um homem que, violando as normas de segurança e os riscos, quis, sem nenhum preparo e equipamento de proteção, domá-la.

Sim, em um claro ato de loucura, aqui utilizado como sinônimo de desespero, a subjetividade do jovem, apelidado de “vaqueirinho” projetou junto aos felinos, algo que inovaria a expressão da sua dor, em que o descaso e a negligência do seu meio social culminaram com o trágico final, transmitido por uma plateia que apenas queria ter como lazer curtir a beleza das feras enjauladas.

Caro leitor, o que levaria uma pessoa a fazer isso não vem ao caso e não interessa ao “circo social” representada pelas as mídias e redes sociais, já que, se dizem autoridade no assunto e os que tecem suas opiniões, pouco se impactam com o contexto, se o jovem de 19 anos era conhecido pelos danos e passagens pela polícia e o seu histórico de intervenções em clínicas, que o diagnosticaram com esquizofrenia, ou seja, isso pouco importa, como li em comentários, “um louco a menos”.

Realmente, ele seria de fato, mais um óbito, sem a identificação e problematização devida que envolve o nexo de causalidade que a saúde mental silenciada produz.

O oportuno a ser dito é que as redes de proteção social, saúde e segurança pública foram incapazes de garantir a dignidade humana a este “sujeito de direito” que, como outros, por terem sofrimento psíquico, se tornam presas fáceis de uma sociedade que naturaliza casos de estupros, agressões, linchamentos em instituições totais, unidades de saúde e vias públicas.

Por outro lado, a tragédia repercute e atende à mediocridade intelectual, que ativamente se manifesta em risos e piadas, provocando danos ao propagar que pessoas com sofrimento psíquico trazem insegurança e perigo, um claro exemplo de vitimização quaternária, postulada pelo professor Alvino de Sá.

Como aduz a conselheira tutelar, Verônica Oliveira, que o acompanhava, tais pessoas “vivem em jaulas invisíveis”, e por serem vistas como improdutivas, imprevisíveis e perigosas, merecem ser destituídas da convivência familiar, revivendo o abandono institucional após completarem a maioridade. Adultos, “é cada um por si”, como aponta Leonardo Abrahão, ou são levados à segregação institucional, como postulam os psiquiatras e operadores da justiça, entusiastas da Antropologia Criminal, ao alegarem que o manicômio remediaria tais situações.

Acredito que os palpiteiros e os que alegam desconhecimento do manejo adequado com este público, fossem pelos meios de comunicação, sensibilizados a ter consciência das estratégias de proteção e cuidado às pessoas com sofrimento psíquico. Como lamentou Verônica Oliveira, “Ele precisava de acompanhamento de saúde mental digno, mas não teve. Todo o poder público falhou com ele, com a família”.

Como lição, fica a visibilidade aos desnudos das garantias e proteção do ECA que sofrem a negligência institucional. Assim como a responsabilização e cobrança dos gestores das políticas públicas e dos empresários, que incluam na pauta as estratégias de psicoeducação, o acolhimento qualificado em seus espaços de trabalho, nos componentes da segurança pública e da saúde, visando garantir a articulação do cuidado e o encaminhamento devido aos profissionais e serviços substitutivos, que seguem os preceitos da Reforma Psiquiátrica.

Tal pensamento deve prevalecer aos ditos defensores do darwinismo, que propagam que se tratam de pessoas inferiores, degenerados e coitados, já que devido à superação do modelo biomédico, representado pelo hospital psiquiátrico e manicômio judiciário, não podem exercer a dialética exclusão/inclusão estudadas por Erving Goffman, ao promover práticas híbridas que carregam o que há de mais perverso a serviço das ideias penais e neoliberais.

Por fim, ressalto que a ausência de investimento na cultura em prol da saúde mental revela a manipulação dos sorrisos e das opiniões que retroalimentam os ciclos de violações dos direitos fundamentais, demonstrando que as feras e os “loucos” não são perigosos por agirem pelo instinto ou em estado de desespero, são na realidade personagens ingênuos, assim como os leigos, em uma sociedade que prende, segrega e banaliza o mal, demonstrando ser cada vez mais insana e mortal.