Quando a inovação move a economia:

O Maranhão desenvolve!

Roberto Matos (1) e Roberto Serra (2) - ¹ Presidente do Conselho Regional de Economia do Maranhão e Secretário Adjunto de Planejamento e Orçamento do Maranhão.

Deter riquezas naturais, contar com uma localização privilegiada e investir em infraestrutura física não são condições suficientes para assegurar a prosperidade de uma sociedade. Prosperam aquelas que constroem instituições capazes de promover inclusão, aprendizado contínuo e impulsionar a inovação. O desenvolvimento sustentável requer, entre outros aspectos, capital humano qualificado e um ambiente institucional que favoreça o empreendedorismo, a cooperação e a circulação de ideias.

O Maranhão, apesar do avanço recente do PIB — acima da média nacional —, ainda não conseguiu alterar sua estrutura produtiva, fortemente dependente de atividades extrativas e exportadoras, com baixo valor agregado e baixa densidade empresarial. Em 2022, a indústria representava 15,1% do PIB estadual, e o setor de serviços 71,4%, enquanto a agricultura respondia por 13,5%. A soja, alumina, celulose e o minério de ferro estão entre os principais produtos exportados, refletindo a concentração em commodities, além da baixa diversificação. A participação da indústria de transformação no PIB do estado é de apenas 10,5% (2022), indicando a fragilidade da cadeia de valor local. Soma-se a isso a baixa qualificação da mão de obra, que compromete a produtividade, limita o acesso a ocupações de maior valor e impacta diretamente a renda da população.

Dados do PNUD indicam que o IDH do Maranhão, apesar de avanços, ainda é um dos menores do país (0,676 em 2021), e o PIB per capita do estado (R$ 20.628 em 2021) é 60,3% inferior à média nacional, sublinhando a necessidade de maior inclusão e desenvolvimento humano. Trata-se de uma dinâmica intensiva em capital físico, que gera crescimento sem necessariamente promover desenvolvimento. Esse modelo, centrado em enclaves produtivos, mostra claros sinais de esgotamento.

Esse quadro nos leva a um momento crucial. O Maranhão está diante da oportunidade de romper com um padrão de desenvolvimento que, embora tenha gerado crescimento econômico, ainda não foi capaz de garantir inclusão produtiva ou avanços estruturais significativos. A superação desse impasse requer uma nova lógica de atuação: sistêmica, conectada às demandas do século XXI e impulsionada pela inovação. O estado precisa sair da lógica da dependência primário-exportadora e avançar para cadeias produtivas de maior valor agregado, com mais tecnologia, inteligência e participação local.

A redefinição desse modelo passa, necessariamente, pela inovação, pela diversificação produtiva e pela formação de competências que ampliem a complexidade econômica do estado. O Plano Maranhão 2050 aponta nessa direção, ao propor uma nova lógica de desenvolvimento — baseada na modernização institucional, na sustentabilidade e na valorização do capital humano e da inovação como motores da transformação produtiva e social.

Além da articulação de políticas públicas e investimentos coordenados, é necessário o fortalecimento de pactos interinstitucionais robustos, convergência entre os setores e participação ativa das diferentes esferas da sociedade.

Algumas iniciativas recentes caminham nessa direção. A FAPEMA, por exemplo, ampliou significativamente seus investimentos em pesquisa e inovação, saltando de R$ 11,2 milhões em 2023 para R$ 32,1 milhões aplicados em projetos de inovação e empreendedorismo somente em 2024. Adicionalmente, o governo estadual, por meio da SECTI, lançou um edital com R$ 1,1 milhão para apoiar startups e projetos inovadores, reforçando o estímulo ao ecossistema local.

Soma-se a isso, ainda como resultado de iniciativa governamental, os investimentos no fortalecimento e estruturação dos campi da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), com cursos tecnológicos conectados às novas fronteiras do conhecimento e à dinamização da Agência Marandu, voltada à articulação entre a academia, o setor produtivo e o governo em torno da ciência, tecnologia e inovação como eixos estruturantes do desenvolvimento.

Contudo, os esforços em favor da inovação não devem ser exclusivos da agenda governamental, tampouco restritos ao setor tecnológico. A inovação é uma força transversal, que precisa estar presente no campo, nas cidades, nas empresas, na indústria, nas universidades e, sobretudo, nas políticas públicas. Inovar é transformar processos, aperfeiçoar serviços, qualificar decisões e gerar valor. Por essa razão, a inovação deve ser entendida também como cultura institucional, como prática cotidiana e como eixo de transformação econômica e social.

Apesar dos avanços, o desafio agora é dar escala, profundidade e coordenação a essas iniciativas. É preciso fortalecer a capacidade do estado de reorganizar práticas, redesenhar políticas, combinar saberes e transformar rotinas. A Nova Indústria Brasil, ao propor uma reindustrialização verde, digital e inclusiva, oferece diretrizes compatíveis com as vocações do estado. Setores como a bioeconomia, a agroindústria, as tecnologias da informação e comunicação (TICs) e a biotecnologia despontam como estratégicos, sobretudo quando articulados aos nossos ativos locais — biodiversidade, infraestrutura logística, base científica em consolidação e, sobretudo, gente capaz.

Nesse contexto, é fundamental superar os limites do modelo atual, marcado por baixa industrialização, pouca complexidade tecnológica e escassa integração entre as cadeias produtivas locais. Estima-se que mais de 70% do valor adicionado da indústria maranhense esteja concentrado em grandes empreendimentos exportadores, com reduzido impacto sobre o desenvolvimento dos territórios. Inverter essa lógica significa promover uma reindustrialização inteligente, conectada às potencialidades regionais, com base na ciência, na inovação e na sustentabilidade.

A lógica da quíntupla hélice — que integra universidades, setor produtivo, governo, sociedade civil e sustentabilidade — precisa atuar como engrenagem viva do desenvolvimento. O desafio está em ativar a inovação como força condutora — capaz de reinterpretar nossas vocações, dinamizar a economia local e ampliar horizontes de inclusão, produtividade e bem-estar coletivo. Embora o estado tenha avançado no Ranking de Competitividade dos Estados, o Maranhão ainda ocupa as últimas posições de inovação no país, o que reforça a urgência de mais investimentos e articulação.

Para tanto, é necessário mobilizar todos os atores do ecossistema de inovação maranhense. Isso envolve fortalecer redes de colaboração, criar espaços permanentes de diálogo entre as hélices, investir em formação empreendedora desde a educação básica até a pós-graduação, ampliar os mecanismos de fomento à pesquisa aplicada e estimular ambientes de experimentação e inovação nos territórios. Há múltiplas formas de colocar a inovação no centro da estratégia de desenvolvimento. O mais importante é que ela deixe de ser vista como um complemento e passe a ser tratada como base estruturante de um novo modelo de futuro.

Em outras palavras, é por meio desse movimento transformador que o Maranhão poderá avançar com consistência, pois seu desenvolvimento passa, de forma incontornável, pela inovação. Mais que uma agenda moderna, trata-se de um imperativo histórico para que o estado não apenas cresça, mas se desenvolva com justiça, inteligência e sustentabilidade.