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O custo invisível do endividamento das famílias

Roberto Matos e Juliana Mochel - presidente do Conselho Regional de Economia do Maranhão -conselheira Efetiva do CORECON-MA

Os dados mais recentes sobre o endividamento das famílias brasileiras mostram um problema que precisa ser lido com mais profundidade. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor de março de 2026 registrou que 80,4% das famílias possuem algum tipo de dívida, o maior percentual da série histórica. Entre elas, 29,6% estão com contas em atraso e 12,3% dizem não ter condições de pagar o que devem. Na mesma direção, a Serasa apontou 81,7 milhões de consumidores negativados em fevereiro. O que chama atenção não são os números em si, mas a persistência de um ambiente em que a fragilidade financeira das famílias deixa de ser episódio e passa a ter caráter estrutural.

Endividamento, por si só, não é sinal de desorganização. O crédito cumpre papel relevante em economias modernas porque permite suavizar o consumo ao longo do tempo, enfrentar choques de renda e antecipar gastos que fazem sentido na vida familiar. O problema surge quando esse instrumento passa a operar em condições muito desfavoráveis. Em um país com juros elevados, renda pressionada e pouca educação financeira, o crédito frequentemente deixa de ser mecanismo de planejamento e passa a funcionar como remendo para desequilíbrios recorrentes do orçamento doméstico. Quando a dívida financia investimento, a compra de um bem durável ou uma necessidade extraordinária, ela pode cumprir função econômica legítima. Mas, quando passa a cobrir despesas correntes, o sinal muda. A família já não está apenas antecipando consumo. Está tentando sustentar o presente com recursos do futuro.

O ambiente macroeconômico recente nos ajuda a entender essa dinâmica. Em fevereiro de 2026, a taxa média de juros do crédito livre para pessoas físicas chegou a 62% ao ano. Com um custo dessa magnitude, pequenas dívidas crescem rapidamente, a renegociação se torna mais difícil e a margem de erro desaparece. O orçamento fica mais rígido, mais vulnerável a imprevistos e menos capaz de absorver oscilações de renda.

Havia sinais de desaceleração da inflação, o que abria espaço para queda dos juros. Mas a alta do IPCA em março, com a inflação acumulada em 12 meses passando de 3,81% para 4,14%, voltou a gerar dúvidas sobre a continuidade e a intensidade desse movimento. Há, portanto, um problema de custo do crédito, mas não apenas isso. Existe também uma dificuldade relevante de lidar com escolhas que envolvem tempo, risco e consequência.

A reflexão do economista Eduardo Giannetti, em O valor do amanhã, continua útil nesse debate. Juros não são apenas uma variável de mercado. Eles também expressam aspectos comportamentais, ou seja, a forma como indivíduos e sociedades lidam com a relação entre benefício imediato e custo futuro. Em contextos de escassez, essa tensão se agrava, porque o curto prazo deixa de ser preferência, desejo, e passa a ser imposição, necessidade.

As apostas online ampliaram a pressão sobre orçamentos que já operavam no limite. Estudo do Ibevar, em parceria com a FIA Business School, mostrou que as bets aparecem como variável fortemente associada ao agravamento da inadimplência entre 2011 e 2025. O dado não reduz a importância dos juros altos. Ele apenas mostra que o problema ganhou uma camada nova. Segundo o levantamento, o coeficiente associado às apostas foi de 0,2255, bem acima do peso do crédito sobre a renda, de 0,0440, e dos juros ao consumidor, de 0,0709. Há ainda um aspecto menos visível, mas socialmente relevante.

Embora o Brasil ainda careça de pesquisas mais específicas sobre o tema, a literatura internacional mostra que muitas pessoas têm constrangimento em admitir que jogam. Por isso, esse gasto frequentemente não aparece com clareza nem nas conversas familiares nem no próprio controle do orçamento. Vai sendo diluído em pequenas transferências, aparentemente inofensivas, mas que, ao longo do mês, aprofundam um tipo de endividamento silencioso, justamente porque não se apresenta de imediato como despesa recorrente.

É nesse contexto que a educação financeira precisa ser tratada como tema de política pública, e não apenas como recomendação individual. Não se trata apenas de difundir boas práticas de consumo, como também enfrentar uma assimetria estrutural de informação e de poder que caracteriza o funcionamento dos mercados de crédito e consumo. Em ambientes marcados por elevada complexidade financeira, decisões cotidianas envolvem variáveis como juros compostos, prazos, custos implícitos e riscos que nem sempre são transparentes para a maioria da população.

A educação financeira assume papel estratégico ao ampliar o repertório decisório, reduzir vulnerabilidades e fortalecer a autonomia, permitindo lidar de forma mais consciente com categorias centrais como custo, risco, prioridade, limite e consequência. Trata-se, portanto, de uma política pública voltada à qualificação das decisões econômicas em contextos adversos, com impactos diretos sobre bem-estar, inclusão e redução de desigualdades.

A partir dessa compreensão, foi concebido, no âmbito do Conselho Regional de Economia, o projeto Proteja Seu Bolso, em parceria institucional com a Defensoria Pública do Estado do Maranhão. A iniciativa foi estruturada para atuar diretamente com públicos em situação de vulnerabilidade, incorporando um recorte de gênero que reconhece as desigualdades específicas enfrentadas pelas mulheres no campo econômico. No eixo “Proteja Seu Bolso, Mulher”, voltado às assistidas pelo programa Te Alui, Mulher, parte-se do entendimento de que a dependência econômica frequentemente opera como elemento estruturante de ciclos de violência e restrição de autonomia. Já o “Proteja Seu Bolso, Iyá”, destinado a mulheres egressas do sistema prisional, dialoga com trajetórias marcadas por rupturas, estigmas e barreiras adicionais de inserção econômica e social.

Em ambas as frentes, as ações são construídas a partir da realidade concreta das participantes, combinando orientação prática sobre orçamento, consumo e direitos com uma abordagem situada das decisões econômicas. Há, de forma transversal, o tratamento do uso responsável do crédito, bem como a compreensão dos riscos econômicos e comportamentais associados às práticas de apostas online. O mérito dessa experiência está justamente em deslocar a educação financeira do plano abstrato para a vida real, onde emergem o crédito abusivo, os golpes, a dependência econômica e outros fatores que comprometem a autonomia. Ao fazer isso, a iniciativa contribui não apenas para a organização do orçamento doméstico, mas para o fortalecimento da autonomia econômica como dimensão central da cidadania.

Nos últimos meses, voltaram ao debate nacional medidas emergenciais de renegociação de dívidas. Em determinadas circunstâncias, elas são legítimas e até necessárias. A discussão sobre o uso do FGTS para quitação de débitos, a criação de garantias para facilitar acordos, a possibilidade de descontos sobre passivos de consumo e iniciativas como o Crédito do Trabalhador podem aliviar a pressão de curto prazo. Também é positiva a intenção de regulação das bets. Mas é importante reconhecer o limite dessas respostas. Elas ajudam a administrar o estoque do problema, sem necessariamente alterar sua lógica de reprodução.

Sem redução do custo estrutural do crédito, sem maior formação econômica da população e sem regulação mais firme de atividades que drenam renda e ampliam a exposição ao risco, continuaremos atuando sobre sintomas. O endividamento recorde é apenas a face mais visível de um desequilíbrio mais profundo. O que está em jogo não é apenas a capacidade de pagar dívidas. É a capacidade de organizar a vida com alguma previsibilidade. E uma economia em que as famílias perdem essa capacidade revela, aos poucos, o custo invisível do endividamento das famílias: o comprometimento da própria noção de futuro.