opinião

Tempos Estranhos

Renato Dionísio - Historiador, Poeta, Compositor e Produtor Cultural

A ninguém, pelo menos até agora, foi dado o direito de saber quando e como o mundo foi criado. O que sabemos, vem de explicações religiosas ou de teorias pouco convincentes. Da mesma forma, se apresentam as explicações acerca do surgimento do Homo sapiens. A pelo menos 100 mil anos tentamos responder convenientemente estas e tantas outras indagações. Sabemos, entretanto, e disto fazemos prova, que o planeta existe e é dominado pelos humanos.

No desenvolvimento de nossa espécie, não sabemos a partir de que tempo se desenvolveu nela a inteligência, como a conhecemos hoje. Desconhecemos a partir de que tempo adquiriu ele a capacidade de se locomover de forma ereta. Certamente não se constitui mistério algum, a compreensão de que os humanos vêm desenvolvendo e aprimorando, ao longo de milênios, a maior e mais importante de suas possibilidades, que é a capacidade de se comunicar, de estabelecer relações de cooperação, com vista a determinado interesse.

Tendo desenvolvido a capacidade de se comunicar estabeleceu grupamentos e cidades. Com habilidade incutiu a necessidade do estado, das leis e tribunais. Através dela, mais que dá força, estabeleceu posições de mando, introduziu crenças, temores e dominou o universo. Utilizando-se desta ferramenta, construiu uma supremacia que só foi possível pela habilidade de se comunicar, mais do que pela capacidade de se mostrar semelhante a outros da mesma espécie.

Interagir, compartilhar e associar-se, somente foi possível pela aceitação de pontos comuns, tradição e cultura, valores através dos quais as pessoas se reconhecessem. Para tanto, a ele se impôs a necessidade da criação de narrativas, que tornassem comum o passado, o presente e as expectativas futuras. Ainda que iniciadas nos primórdios, estas narrativas foram impulsionadas com a descoberta da escrita e turbinada com a criação do prelo, que produziu poderosas narrativas, dentre elas, as de cunho religioso, posto que fabricados aos milhões os livros “sagrados” deram asas às religiões.

Se a capacidade humana individual de ser inventivo criou a revolução industrial e suas dobras, foi a incontestável capacidade de convencimento que tem a comunicação, que forjou as grandes descobertas marítimas, fez do iluminismo o farol que iluminou a Revolução Francesa transformando o povo em herói em 1789. Foi a informação, levando o conhecimento, que forjou acontecimentos em determinados lugares, e estes, foram sepultando os velhos hábitos e erigindo novas formas de ver a vida e o mundo.

Possivelmente, o passo mais largo, esquisito e inseguro na possibilidade que o homem tem de se comunicar e construir narrativas, esteja sendo dado neste exato

momento em que vivemos. A invenção do computador, o surgimento das Big techs e posteriormente da inteligência artificial, com sua enorme aptidão de reproduzir narrativas e, quem sabe, com o desenvolvimento de sua capacidade de pensar autonomamente e decidir, não possa ela, por si somente, construir as próprias narrativas. De posse destas apoiar guerras, exterminar minorias e subverter crenças e valores. Esta “possibilidade” me assusta e me leva, com reservada dose de preocupação, a concluir que estes são tempos estranhos.

Espanta quando tomamos conhecimento de que as atuais maiores fortunas do mundo foram construídas de forma virtual, não foram produzidas nas fábricas, com o suor humano e jornadas de trabalho. Choca saber, que hoje, vale mais quem tem o maior número de seguidores, curtidas e engajamentos. Entristece saber que eleições são decididas pelos que têm mais capacidade de explorar as novas mídias sociais. Assim, jogam na cara deste velhinho que Cristiano Ronaldo, o R7, tem 1,2 bilhões de seguidores. Que Beyoncé tem 500 milhões e que até o capiroto passa de 200 mil seguidores. O que eles fazem? O que eles dizem? O Que eles ensinam?

A palavra seguidores, remete-me automaticamente, por estar no ocidente, e pela cultura recebida, à figura de jesus Cristo, nascido a mais de 2000 anos, para muitos, a luz a ser seguida. A sabedoria divina e o caminho da salvação. Muito bem, segundo os ensinamentos, por inspiração divina, Pedro criou a Igreja para orientar e cuidar dos seguidores. Hoje os seguidores da doutrina ensinada somam 2,3 bilhões de adeptos, em volta de um terço dos habitantes da terra, o que torna esta religião a primeira em número de seguidores.

Para que se tenha chegado a este número, passou-se dois mil anos de luta e organização. Mais que isto, o corpo diretivo da igreja e formado por um Papa, 4.155 bispos diocesanos e religiosos e 407.000 padres. Gente que trabalha em tempo integral no ajuntamento de seguidores. Dedicados apóstolos, presentes em quase todos os países onde fazem da doutrina e do exemplo, razão para serem seguidos no amor ao salvador. Como e com que valores trabalham aqueles? Esta é a pergunta que teimosamente martela minha “besta” alma.

É espantoso que os números acabaram conferindo algum poder a estes chamados influenciadores, inclusive político. Não por acaso, Bolsonaro e a grande maioria de seus apoiadores deixaram de ser figuras periféricas para alcançarem mandatos neste imenso Brasil, muito graças ao milagre dos algoritmos. Uma das maiores fake news da história foi a divulgação da existência de bruxas, que possibilitou a inquisição na idade média e o “justiçamento” de milhões de inocentes. Confessadamente, se os números me impacientam, as imprevisíveis possibilidades futuras me põem em alerta.