opinião

Quem perde e quem ganhou?

Renato Dionísio - Historiador, Poeta, Compositor e Produtor Cultural

 Na recém-encerrada greve dos transportes coletivos de São Luís, aos olhos da população, que ao final é quem paga a conta e pouco ou nada opina, alguns agentes públicos tiveram ganhos políticos, outros derrotas. Do ponto de vista econômico, da mesma forma, houve vencedores e perdedores. Nestes apontamentos, pretensiosamente, desejamos tirar das sombras os participantes de cada grupo, vencedores e perdedores, dentre os participantes da peleja.
A lide envolvia, e ainda envolve, o Prefeito Braide, administrador do sistema urbano da cidade. O Governador Brandão, que responde pelo sistema metropolitano de transporte. O vereador Paulo Victor, atual Presidente da Câmara de Vereadores de São Luís. A Justiça do Trabalho, que tem a competência de interpretar a legislação e mediar o conflito. Os empresários do setor de transporte coletivo e o Sindicato dos Trabalhadores, que neste caso, por força de acordo anterior, representa os trabalhadores dos dois sistemas.

Do ponto de vista político, quem melhor se saiu foi o Presidente da Câmara, que, mesmo com as turras com o Prefeito, teve a capacidade de enxergar a “casca de banana,” enviada pelo alcaide, que o deixaria culpado pela não solução do problema, e devolveu o “boi voador,” em tempo recorde e sem nenhuma marca. Venceu também o Governador, que, percebendo a possibilidade de alfinetar o futuro adversário político, concedeu o aumento possível, entre o pedido e a pretensão, tendo a seu favor, inclusive, a sabedoria de se antecipar ao Prefeito na maluquice dos Uber. Com uma diferença, seria de forma reduzida e administrável.

O grande perdedor político foi Eduardo Braide, que mais uma vez mostra sua incapacidade para o diálogo, pensando que pode substituí-lo por suas aparições no Twitter. O Prefeito foi para cima do movimento paredista e cometeu erros estrondosos: primeiro, inventou a loucura do Uber, sem saber ao menos quantos são os passageiros e qual o volume por local de moradia e trabalho. Segundo, aceitou, jogou a toalha para a proposta encaminhada pela justiça do trabalho sem a discussão de qualquer planilha que o orientasse. Terceiro, demonstrou, passados quatro anos, não conhecer sequer o volume de gratuidades no sistema, que é, em última análise, o fundamento para a manutenção do subsídio que mensalmente é pago pelos munícipes, usuários ou não do sistema, e transferido aos patrões.

O prefeito, jogando para a plateia, “esconde” o volume de recursos, inclusive não previstos no orçamento deste ano, que concederá aos empresários, em forma de subsídios, na ordem de 16 milhões, que se somarão aos 108 milhões já orçados, para cobrir as gratuidades. É fato que o prefeito recorreu à justiça comum, da decisão da câmara de reduzir de 25 para 5% -por cento- o valor que poderá ser

remanejado, sem obrigatória consulta ao poder legislativo municipal. Despretensiosamente pergunto, os recursos para fazerem frente a este compromisso saíram dos 5% já aprovados, ou buscará ele autorização dos Edis, para remanejar a Lei Orçamentária Anual (LOA) e honrar esta operação?

Perde também a Justiça do Trabalho que, liminarmente, ou melhor, até que as partes finalmente resolvam o problema, com acordo coletivo assinado e tudo. Sem nenhum dado, planilha, estudo técnico de viabilidade e conformidade, oferece montantes que ultrapassam os índices inflacionários nacionais, criando com isto mais inflação para a sociedade e penalizando financeiramente os usuários de transporte.

Com o fim do movimento paredista, de forma clarificada, se estabelece a verdade de que os rodoviários foram vitoriosos. Não conseguiram o desejado, mas alcançaram mais que o bom senso recomendaria, veja-se os índices inflacionários e o atual momento político do país. Neste mesmo sentido, estão os empresários, que obviamente organizaram seus negócios para dar lucro, palavra e sentimento que o bom senso questiona a legitimidade desde o surgimento da Revolução Industrial e a instituição de salários.

Com o fim do movimento, a sociedade está a perguntar quais os desdobramentos deste caso. Recorrerão contra a determinação judicial os dois sindicatos, o dos patrões e o dos empregados? O prefeito também recorrerá, posto que declarou ser desmedido tal petitório? Que tempo levará para a construção de uma decisão definitiva, o acordo coletivo? Que salvaguardas construirá o prefeito para proteção futura? Manterá o plano Uber, ou isto é coisa para ser esquecida?

Por fim, em qualquer roda social ou política que nos encontremos, onde o assunto seja administração pública, é unanimidade a falta de atenção do prefeito com os funcionários, prestadores de serviço e representações sindicais, patronais ou não. Se lhe falta, ou não, traquejo com a classe política e estes segmentos, deveria saber que dirige uma fábrica de louças. Que goste ou não, é com eles que será obrigado a gerenciar nossa urbe. Será que vai aprender até a abertura da concorrência pública? Não vale ata de adesão de preços, prometida como forma de intimidação aos patrões nesta greve. Só o tempo dirá.