
Já faz tempo que recebo informações sobre a presença das SAFs em organizações esportivas mundo afora. Da mesma forma, ouço acirradas discussões entre torcedores, acerca do assunto. Confesso que o tema não me movia, não mexia comigo. De repente, mais que de repente, como num choque, o problema de mim se aproximou. Revirou o baú de meus guardados, mexeu com meu coração e minhas recordações. Chutou minha memória. Expulsou minhas saudades e ameaçou com vara de ferrão minhas esperanças.
Isto ocorre pelo fato de ter visto nos jornais que o longevo presidente da Bolívia Querida, o empresário Sergio Frota, anuncia para dezembro seu desembarque da direção Sampaina e propala como um dos últimos atos a transformação do Esquadrão de Aço em SAF- Sociedade Anônima do Futebol-. Sem pretender fazer juízo de valor do período em que a equipe esteve sob a responsabilidade do empresário, me ponho a perguntar desta necessidade. Se ela realmente existe, qual foro foi organizado para estas tratativas? Qual análise de tempo e perspectivas futuras embasam esta discussão? A presunção está finalmente decidida? Quem decidiu?
Se nada impede que boas práticas administrativas, aliadas a bons princípios contábeis, sejam implantados em qualquer time neste país. Na ausência destas privações é patente que um bom administrador pode gerir com respeito uma associação esportiva. Cansa ouvir dirigentes que após anos no cargo, após enfrentarem eleições acirradas para ocupar uma presidência, diga-se, não tem remuneração, apresentarem alegação de sacrifícios e privações. Diariamente ouvimos que tais equipes estão atoladas em dívidas, que serão futuras SAF. Se não for discurso para ajudar a privatização, sou forçado a admitir: quem compra algo assim, ou é um gênio em administração, ou está sendo engabelado.
Sabendo que qualquer pessoa, brasileira ou não, pode registrar em nosso território empresas, associações, institutos, ou qualquer outra figura jurídica. E isto não é caro! Por que razão então, alguém ao contrário de fazer um registro, se propõe a comprar um time de futebol? O que levará para casa? Qual o valor de um título estadual e de um nacional? Quanto vale o milheiro de torcedor? Quanto vale uma torcida organizada? Afinal, o que estão vendendo ou o que estão lavando? Ops! Desculpe, comprando.
O que materialmente pode ser vendido pelo Sampaio Correia, entre outros bens, o centro de treinamento, a academia, alguns jogos de camisa, algumas taças e troféus, o passe de alguns atletas, com futuro maior ou menor. Penso ser pouco a ser ofertado no mercado. O que desejam, de verdade, estes investidores comprarem? O que ganha o torcedor com a venda? Que garantias oferece o comprador? Sobretudo sabendo-se que algumas experiências destas se transformaram em rotundo erro mundo afora. Sei não, talvez devêssemos ligar o desconfiômetro. O velho Brizola dizia: quando todos estiverem batendo palmas para algo, o melhor é começar a duvidar.Quando lembro do Santa Isabel lotado, quase sem grama e o povo alegre torcendo pelo gol de seu ídolo. Quando revisito o Nhozinho Santos, com torcedor até nas torres de iluminação, para assistirem o Sampaio ser campeão brasileiro pela primeira, com cinco
penalidades batidas por Neguinho. Ainda me emociono e choro, lembrando o povo espremido no Castelão, para ver a Bolívia ser desclassificada da CONMEBOL pelo Santos de Viola. Acho que começo a entender o que querem vender e o que querem comprar.
Me restando dúvidas, eu lhe pergunto. É possível vender a história, os títulos, as festas, as brigas e as comemorações? É possível vender a paixão, que vem do amor que grita na arquibancada? É exequível negociar os muitos choros de amor e dor entre uma derrota e uma vitória? Quem comprará o amor que tira o último centavo do bolso, para adquirir o uniforme de seu club? Finalmente, sabem eles que o torcedor, em nome de uma “cega” fidelidade, não é vira-casaca. Não vai deixar de torcer pelo time do coração para defender o time de seu Zé. É isto que pensam que vão comprar?
Começo a especular, quanto de suor foi derramado ao longo de mais de um século, para que nosso Tubarão chegasse a 4 milhões de torcedores? Quantos Gojobas, Pelezinhos e Beatos tiveram que entrar em campo? Quantos Antônios, Bentos, Macieiras e Sérgios trabalharam nos bastidores? Quantos Rinalde Maia e Marçais tramaram nossas vitórias? Difícil responder, sobretudo se levo em conta que meu filho é boliviano pelos ensinamentos que lhe ministrei, mas, é sobretudo mais em respeito ao meu amor pelo club. É isto que querem comprar? Por favor, respondam! É isto? Depois das mídias sociais e do advento da inteligência Artificial. Das big tecks que manipulam Bots e as fake news o mundo ficou meio esquisito, a admiração deixou de ser pelo conteúdo para amar a forma e o escracho. Vale mais quem compra e ostenta grande número seguidores. Assim, quanto vale o Flamengo e seus quase 50 milhões de seguidores, ou melhor, torcedores? Os estratosféricos números podem até vender. Não venderam, isto eu afirmo! O meu amor pela Bolívia. Este é inegociável. Penso que se jogo não é jogatina, time de futebol não pode ser patrimônio de seu ninga.