
Durante o “Batizado do Boi Pirilampo”, ocorrido na sede da organização, no último dia sete de junho, deste ano de dois mil e vinte e cinco, após negativa da paróquia da Cohab em realizar o ritual, por razões que para o pároco se justificam, entretanto, não recebem este o acolhimento deste missivista. Tivemos a honraria de receber a bênção, ministrada pelo Santo Padre Haroldo, sacerdote e monge do mosteiro da Hungria, que em primoroso sermão explicou a diferença entre a benção e o batizado realizado por tradição anualmente pelos bumbás de nosso Estado. Após o ato, comecei a matutar sobre pecado e santidade, cultura e religiosidade. Claro que desde sempre me identifico como católico apostólico.
Nesta cerimonia um fato histórico se constituiu, posto que pela primeira vez, para ser abençoada, uma brincadeira pede para ser apadrinhada, em solenidade, por dirigentes de outras agremiações. Após uma breve apresentação do futuro agraciado, lá estavam, para serem padrinho e madrinha, o amo, Valkilmer do fantástico Boi Lendas e Magias e a matriarca do fabuloso Boi de Axixá, Leila Naiva, figura das mais queridas nas boiadas, ambos vivamente emocionados com o momento.
O clérigo, em função de toda luta dentro da cultura popular, o que a ele rendeu o apelido de Padre Boieiro, em tom professoral passou a explicar que na igreja tem benção para tudo, entretanto, somente pessoas podem receber o litúrgico batismo. Disse mais, que agindo assim, a Igreja Católica Apostólica Romana faz o correto exercício de uma, talvez a mais importante de suas missões, que é evangelizar os viventes. Sem distinção, todos que almejam o céu como recompensa de suas vidas.
Por ser, em sua fragorosa maioria, composto por praticantes do catolicismo, o Pirilampo chamou um Padre, como também, não fosse este detalhe, poderia ter chamado um Ministro Protestante para dirigir a cerimônia. Ou ainda, e penso que talvez, levando em conta a origem da festança, fosse até mais correto, a presença de um representante de uma casa de Culto Afrodescendente, onde, para alguns pesquisadores, nasceu este brinquedo; ou por força de uma promessa ou por deferência a uma das divindades da casa.
O ministro Haroldo, falou ainda da importância do saber popular, que com os costumes e a cultura erudita ajudam a dar cercania a cultura de uma gente. Que suprimir ou diminuir esta importância se constitui em profundo aleijamento da alma e da representação de um povo ou nação. Disse ainda, que não existe povo sem cultura, como da mesma forma, inexiste homem sem alma. Revelou que o ato de doutrinar não pode impor cultura, costumes e tradições novos, quem assim age, está cometendo um vilipêndio.
Atentamente ouvir sua explanação e de pronto percebi o quanto minha visão de religião se completava com o que tinha ouvido. Falando por mim, Penso que temos muitas igrejas de arrecadação e poucas de evangelização. Que alguns, embora investidos na função sacerdotal, por acomodação ou desrespeito a liturgia de sua função, não conseguem ir aonde a benção e o conforto espiritual são respeitados e desejados. Obrigado santo padre, a sua Igreja, fincada no desejo de ser sal da terra, combina com a visão deste humilde pecador, e o seu legado será sinal a iluminar os caminhos dos devotos.
Entendo que a igreja que tem Don João XXIII, que convocou o Concílio vaticano II. e pregava a entrada de um ar novo na igreja. Que a instituição que tem um Papa Francisco, que renunciou a todo tipo de conforto para ser espelho de devoção e simplicidade. Que tem Santo Agostinho e São Pedro, terá, por força dos exemplos que se reproduzem no tempo, de abrir uma página onde registrará os feitos e ensinamentos do Padre da Cohab, que vivendo de forma simples, não se furta, mesmo aos oitenta e sete anos, de abençoar os devotos da fé cristã, e com seu exemplo. Graças a Deus, extrapola a dimensão humana par alcança, a celestialidade.