
Carlos Brandão e Eduardo Braide despacham em dois palácios históricos, instalados na mesma Avenida Pedro II, Centro de São Luís, separados apenas por um muro de pedras de cantaria, com vista deslumbrante passando pelas janelas envidraçadas rumo a Baia de São Marcos. Os dois raramente se encontram em atos solenes e não se dão a perder tempo com falações administrativas sobre os principais governos que comandam no Maranhão. De o Palácio dos Leões, de arquitetura neoclássica, originário de 1612, na fundação de São Luís, o governador Carlos Brandão, 67, tem até 3 de abril para decidir se vai ou não trocar sua cadeira pela busca de um mandato de oito anos no Senado Federal.
Já o prefeito da capital maranhense Eduardo Braide, (PSD), 49, despacha no Palácio La Ravardière, construído por volta de 1689, como antiga casa de Câmara e Cadeia. Os dois chefes de Poder trabalham tão pertos e vivem politicamente tão distantes, quanto Lula da Silva no Planalto, de seu colega Donald Trump, na Casa Branca. Não são adversários, mas também estão longe de serem aliados. Até as obras que o governo estadual realiza na capital não tem nenhuma relação com as do prefeito. Esse distanciamento entre dois governantes com gabinetes tão próximos e tão distantes não é novidade. Tem um histórico que se arrasta desde o século XX, com ligeiros intervalos de proximidade política.
O que coincide na relação sobre o futuro de Brandão e de Braide são as implicações dos respectivos vices. Para concorrer ao Senado, como sugeriu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na mais recente conversa, o governador terá que renunciar até dia 2 de abril, portanto daqui a menos de três meses. A tal hipótese, preventivamente descartada, ensejaria na passagem do governo ao vice Felipe Camarão, do PT de Lula. Porém, os dois sequer trocaram mensagens de boas festas na passagem de ano. Brandão deseja ficar o mandato inteiro e tentar passar a faixa ao sobrinho e secretário Orleans Brandão no dia 1º de janeiro de 2027, e seguir em frente sem mandato.
Com idêntica similaridade política, o prefeito Eduardo Braide, que vem se revezando na liderança das pesquisas com Orleans Brandão (MDB), jamais abriu a boca para dizer que é candidato a governador, mesmo lançado como tal pelo presidente de seu partido Gilberto Kassab. Se ouvir o PSD, Braide terá que renunciar ao mandato no mesmo prazo de Brandão. A diferença entre os dois é que o prefeito tem como vice a professora Ismênia Miranda, filiada à mesma sua legenda. Porém, Braide tem a aprovação popular nas alturas, mas não lhe confere sustentação de grupo político com o peso eleitoral exigido.
Se deixar a prefeitura, correndo risco de apostar na loteria das urnas, tanto ele pode sair glorificado com a conquista do vizinho Palácio dos Leões, quanto voltar para casa como ex-prefeito de São Luís. Por sua vez, Ismênia, caso assuma o mandato de titular, ganhará quase dois anos de prefeitura para fazer o que quiser, porém, sem direito à reeleição em 2028. Logo, a situação de Brandão é bem parecida com a de Braide. Jogam na mesma loteria do voto, que exige desprendimento para saber ganhar ou perder, e coragem para enfrentar uma realidade política das mais complexas e radicalizada nos últimos tempos, cuja escala do esquerdismo, do centrismo ou do direitismo não tem lógica alguma no Maranhão.
Hoje o maior partido político do Brasil e no mundo não é o de filiação de quem vota e de quem tem o poder, mas sim a capacidade de mobilizar pelas ferramentas invisíveis das plataformas virtuais – inclusive da revolucionária Inteligência Artificial. Braide confia fortemente nessas formas de comunicação em que ele dirige, atua e se faz protagonista. Carlos Brandão, por sua vez, carrega uma superestrutura de governo, um time de lideranças eleitorais e o apoio de mais de 150 prefeitos até aqui perfilados ao lado de Orleans Brandão, um jovem de novíssima vivência política, mas com atuação de quem busca o protagonista e nunca o papel de coadjuvante, perante o espetáculo da democracia agendado para 3 de outubro.