
Com uma população estimada em 33.032 habitantes em 2025, o Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 8.544; a administração totalmente dependente da programas sociais dos governos federal e estadual; e apenas 915 postos de trabalho formal fora da folha oficial, o município de Turilândia, norte do Maranhão, está vivendo um período completamente acéfalo, fato histórico raro de caos na gestão púbica no país. Localizado a 150 km de São Luís, a cidade cujo nome significa “Terra dos Pássaros” ou “Terra dos Turis”, virou notícia nacional no período mais festivo do ano, entre Natal e Ano Novo.
O motivo não tem nada a ver com a origem ou a riqueza de sua robusta fauna, mas sim por um vergonhoso caso de corrupção coletiva entre os Poderes Executivo e Legislativo. No último dia 23 de dezembro, quando os chefes políticos entram de férias, a desembargadora Maria da Graça Amorim, do Tribunal de Justiça do Maranhão, assinou a ordem de prisão preventiva para 10 políticos e empresários de Turilândia, e prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica para os 11 Vereadores da cidade. Ele atendeu pedido do Gaeco, setor do MP estadual, encarregada de combater corrupção sistematizada em organização criminosa.
Diante das denúncias de desvios de R$ 46 milhões daquele município paupérrimo, passaram o Natal e vão romper o ano novo de 2026 na cadeia, o prefeito José Paulo Dantas Silva Neto, conhecido por Paulo Curió (União Brasil); a primeira-dama Eva Curió; a vice-prefeitaTânya Mendes (PRD), o marido dela; a ex-vice-prefeita Janaína Soares Lima e o marido, além dos 11 vereadores em prisão domiciliar. São acusados de receber propina em troca de apoio político e omissão na fiscalização do Executivo e da própria Câmara. Dessa forma, a situação de Turilândia vive o caos instalado. Câmara está em casa de tornozeleira e o prefeito Curió não tem gabinete na cadeia. Assim, os poderes caíram nas garras do Gaeco.
Só nesta segunda-feira, 29/12, o Geco do Ministério Público estadual começou a ouvir o coletivo político preso na Operação Tântalo II, que apura um esquema milionário de corrupção em Turilândia. Em entrevista à TV Mirante, o promotor Fernando Berniz, disse que alguns investigados foram notificados no dia da decisão judicial. Outros devem prestar depoimento ao longo da semana, na sede da Procuradoria-Geral de Justiça. Ele explicou que o esquema envolvia falsificação de notas fiscais, falta de prestação de serviços e irregularidades em processos de licitação. O município adquiriu tanto combustível cujo valor daria para fazer os carros municipais rodarem infinitamente.
Numa situação politicamente anacrônica, o presidente da Câmara José Luiz Araújo assumiu nesta segunda, 11, a prefeitura. Ele está em prisão domiciliar com monitoramento eletrônico, mas sem ser afastado do mandato eletivo. É o único na ordem de sucessão legal para assumir interinamente o cargo de prefeito no modo presencial. Enquanto não mudar a ordem do TJ, José Luiz pode ficar assinando atos oficiais em sua residência. Porém, na Câmara ele tem autorização para comparecer, logicamente com sua tornozeleira. O problema prático no Legislativo é que todos os edis estão na mesma situação vexatória.
Em suas redes sociais, Paulo Curió atribui o sucesso de sua administração à atuação religiosa, como evangélico. Até em um vídeo no Instagram, Paulo Curió aparece ao lado do ministro Flávio Dino, mas no vale-tudo da campanha de 2022. Em 2024, ele foi reeleito prefeito de Turilândia, quando Dino já nem era mais político. De qualquer modo, vale lembrar a função da Câmara Municipal: legislar, fiscalizar o Executivo e o uso do dinheiro público, além de funções de julgar o prefeito e sua administração, visando o bem-estar e a organização da cidade. Em Turilândia, contudo, todo esse ordenamento foi esquecido. E o povo o que acha?