
Não existe filme “Três dias Para decidir”, mas existe “Três Dias para Matar”, com Kevin Costner. A situação política hoje no Maranhão não tem nenhum ingrediente cultural, mas daria um excelente roteiro de suspense. O enredo envolve o vice-governador Felipe Camarão (PT) com um processo de afastamento tramitando no Tribunal de Justiça, sob a relatoria do desembargador Sebastião Bonfim. Já no Supremo Tribunal, outra encrenca jurídica tramita com idêntico pedido contra o governador Carlos Brandão, nas mãos do ministro Alexandre de Moraes, que já recebeu a contestação da Procuradoria do Estado, na qual nega o alegado descumprimento de decisão do STF.
Só falta agora o parecer da Procuradoria Geral da República, solicitado por Moraes. A ação foi proposta pelo Solidariedade em 2024, então presidido pela senadora Ana Paula Lobato, esposa do deputado Othelino Neto, opositor ferrenho de Brandão. Hoje ele e Ana Paula estão no PSB. E Brandão tem três dias para esperar o TJMA afastar ou manter o vice Camarão. Em caso positivo, o governador pode até repensar sua decisão de permanecer no governo, renunciar e concorrer ao Senado. Nessa hipótese, abriria uma lacuna institucional de poder. Assumiria a presidente da Alema Iracema Vale (MDB), porém se tornaria inelegível para disputar a reeleição de deputada estadual ou federal em outubro.
Dada a possibilidade de decisão judicial ser revogada, Iracema teria que não assumir o governo e sair do Maranhão, o que faria o cargo cair no colo do presidente do Tribunal de Justiça. Caso Alexandre de Moraes mande afastar o próprio governador Brandão simultaneamente com eventual afastamento de Camarão pelo TJMA, aprofundar-se-ia a crise. Como os dois casos – do vice e do governador – caberiam em recursos, o imbróglio ficaria parecido com o atual do Rio de Janeiro, em que o governador Claudio Castro renunciou, o vice há dois anos nomeado para o TCE e o presidente da Alerj Rodrigo Bacelar, cassado pelo TSE.
Faz lembrar fatos complexos ocorridos no Maranhão, não muito distantes. Em 1986, João Alberto de Souza foi eleito vice-governador de Epitácio Cafeteira, e em 1988, eleito prefeito de Bacabal. Ao invés de renunciar a vice-governadoria, ele tirou licença e assumiu a prefeitura em 1989. Só renunciou à prefeitura quando Cafeteira deixou o cargo para disputar o Senado em 1990. Ao assumir o governo, João Alberto foi destituído pela Assembleia Legislativa, presidida por Ivar Saldanha que, após se eleger, tomou posse como governador.
Porém, quando Ivar chegou ao Palácio dos Leões, acompanhado de deputados estaduais, João Alberto estava instalado no gabinete, armado com um 38 cano longo e a Polícia Militar na frente da sede do governo, com ordem de atirar em quem ousasse invadir. Quem resolveu a parada foi o desembargador Almeida e Silva, presidente do TJ, ao conceder uma liminar em favor de João Alberto que ficou no cargo até transmiti-lo ao sucessor Edson Lobão em 15 de março de 1991. Em 2013, Roseana Sarney afastou o vice-governador Washington Oliveira (PT) em troca de uma vaga no TCE. Em 2014, por Ação de Domingos Dutra e Bira do Pindaré, o TJ anulou a nomeação de Washington, mas o STF o manteve.
Roseana queria deixar nos Leões o secretário da Infraestrutura Luís Fernando Silva para ele ser o seu candidato a governador. No entanto, Silva desistiu da empreitada por não contar com a estrutura que precisavam para enfrentar o favorito Flávio Dino. Roseana ficou até o dia 10 de dezembro e passou o cargo a Arnaldo Melo, presidente da Alema – governador por escassos 20 dias. Aquele enredo de 12 anos atrás deixou rescaldo para a crise instalada hoje na política do Maranhão, às vésperas do prazo de desincompatibilização que termina na próxima 6ª feira. São apenas três dias para o prefeito Eduardo Braide, também, decidir o seu rumo político: concorrer aos Leões ou ficar na prefeitura até 2028. O mistério está chegando ao fim.