
Ao definir política como “a arte do possível”, o príncipe, estadista, diplomata prussiano Oto von Bismarck permite refletir-se sobre a importância do pragmatismo na liderança e nas decisões governamentais. Enfatiza a flexibilidade como essencial no sucesso das relações política e na governança. Portanto, a frase calha perfeitamente na realidade política do Maranhão nos dias atuais. Principalmente na relação histórica do PT e PCdoB que, juntos com o PSB e outros 12 partidos juntos entre 2014 e 2023 provocaram a maior ruptura política da história do Maranhão, sob a liderança de Flávio Dino, um esquerdista de origem familiar, com Carlos Brandão, um centrista também familiar.
Foram 11 anos de entrosamento debaixo de um projeto de poder estadual, anunciado como espécie de renascimento e inovação na prática de governança. A verdadeira arte do possível
de Bismarck, embora pareça paradoxal, é redesenhada no século 21 na prancheta dinista para o projeto hoje gerenciado pelo governador Carlos Brandão. Porém, no meio da crise que se afunila rumo às eleições de 2026, encontra-se o PCdoB, principal protagonista da ruptura de 2014. Hoje Flávio Dino é ministro do STF e o PCdoB ficou com o deputado Márcio Jerry na Câmara, quatro deputados na Assembleia Legislativa e dois prefeitos.
No âmbito do governo estadual, o arcabouço político do grupo que assumiu o poder encontra-se esfacelado, mas operando em cargos oficiais. PT, PCdoB, PSDB, PSD, Republicanos, PP, PDT e outras legendas estão, por enquanto, são mantidos por Brandão. Ele perdeu o comando do PSB para a senadora Ana Paula Lobato e agora avalia para onde e como ir com seus aliados. O mais provável é o MDB, presidido pelo irmão Marcus Brandão, pai do pré-candidato ao Palácio dos Leões Orleans Brandão. Portanto, até abril do próximo ano, muita ventania vai soprar de dentro do Palácio dos Leões e no sentido reverso. A arte da política está passando por um novo experimento com ingredientes tão fortes quanto foi em 2014.
É obvio se constatar que, ninguém se conhece mais na política do Maranhão do que o centrista Carlos Brandão e o esquerdista Márcio Jerry – dois vizinhos nascidos e crescidos na mesma rua no centro de Colinas. Assim também, politicamente, ninguém se conhece mais no Estado do que Flávio Dino e Carlos Brandão – dois que mudaram a história estadual em três eleições seguidas para o governo e o Senado, sem qualquer desavença. Logo, a ruptura entre eles, que solta labaredas no centro do grupo originário (Brandão, Felipe Camarão, Jerry e Dino) pode ser um chamariz à razão para a crise que eles criaram. Márcio Jerry, prefere nem debater o tema, nem soprar a fogueira, mesmo sem falar com Brandão desde março de 2025.
O pior é que o foco da crise tem uma parte derretendo a relação política dentro do Supremo Tribunal Federal em forma de processos, alguns na gaveta de Flávio Dino. Por sua vez, Brandão já tem usado a caneta para expurgar alguns petistas do governo, ligados ao seu vice Felipe Camarão, também pré-candidato ao Leões. Como bem disse Bismarck, as possibilidades da arte da politica estão postas num momento crucial do Maranhão. Afinal, a eleição de 2026 promete ser uma das mais complexas e decisiva dos períodos saneísta e flavista, que somam 60 anos de história de um Maranhão desafiado e derrotado pelas mazelas sociais, sustentadas pelas políticas oligárquicas, de renda mal distribuída e ambições desmedidas.
Desde 2002, o PCdoB manteve sua estratégia de conviver com o PT que chegou ao Planalto pela primeira vez, apoiando uma candidatura vitoriosa. De 2006 a 2016 novamente com Lula e Dilma Rousseff, o velho PCdoB chegou ao auge no Maranhão, elegendo Flávio Dino como seu primeiro governador, em 92 anos de uma trajetória única na história política do Brasil. Em 1985, o “Partidão” saiu clandestinidade e ganhou vida legal pelas mãos de José Sarney na Presidência da República. Naquele ano, o vice-presidente do PCdoB e deputado Aldo Rebelo (SP) bradou: “Nunca fomos stalinistas”. Hoje é testemunha de Jair Bolsonaro no processo em que nega a tentativa de golpe em 08/01.