
Pouco usual no Brasil, mas já dicionarizada em alguns glossários da língua portuguesa, o verbo transitivo direto “escrotear” calha na posição intervencionista do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao supertarifar as importações do Brasil e investigar outros itens, inclusive o Pix. Ao punir o maior país da América Latina com falsos argumentos no bojo do apoio político ao ex-presidente Jair Bolsonaro Jair Bolsonaro, Trump está escroteando o seu parceiro comercial de 200 anos. Ao taxar em 50% todos os produtos importados do Brasil, o presidente republicano de extrema-direita ameaça quebrar desde a indústria de aço laminado até os produtores de café do Brasil e de manga do Nordeste.
Faz-me lembrar o ex-goleiro do Sampaio Corrêa e então vereador Severino Brito, já falecido. Certa vez, ele entrou na sessão da Câmara, comendo um enorme cachorro-quente, o que levou a presidente da Casa, Lia Varela fazer soar a campanha de sua mesa: “Alerto vossa excelência que é proibido comer neste recinto. É falta de decorro parlamentar!” Britão, como era conhecido, olhou a presidente nos olhos e soltou a pergunta desconcertante: “Vossa excelência quer escrotear comigo?”. E continuou devorando o hotdog até acabar. Agora, cabe perguntar a Trump: “Por que vossa excelência quer escrotear o Brasil”?
Ainda não satisfeito com o impacto do tarifaço que atinge em cheio a economia do Brasil e também dos Estados Unidos, Donaldo Trump escalou a crise para outros setores. Mandou o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) abrir investigação contra o Brasil em seis frentes de apuração: comércio digital e serviços eletrônicos de pagamento (pix); tarifas preferenciais; enfraquecimento do combate à corrupção; propriedade intelectual; barreiras ao etanol americano; e desmatamento ilegal. Do pix, a apuração vai à Rua 25 Março (São Paulo) – maior centro comercial de falsificados do Brasil. Naquela região, os produtos são chineses e coreanos –, mas muitos de marcas americanas. Portanto, a encrenca articulada nos Estados Unidos pelo deputado licenciado Eduardo Bolsonaro para pressionar as autoridades brasileiras por anistia aos golpistas do 08/01/2023 e, por tabela, beneficiar o seu pai, Jair Bolsonaro, caiu como uma bomba no bolsonarismo. Atinge em cheio o agronegócio a partir da madeira, aço, carne, manga, café e centenas de outros produtos que geram milhões de empregos e movimentaram só em 2025, US$ 20 bilhões em mercadorias aos EUA, cerca de 12% do total das exportações brasileiras, que somaram US$ 165 bilhões. De quebra, as medidas alavancaram a aprovação do governo Lula, como ele está reagindo ao tarifaço e a interferência na soberania do Brasil.
As consequências dessa armadilha dos Bolsonaro no comércio exterior e na economia do Brasil, armada pela nata da extrema-direita em aliança com Trump estão longe de serem dimensionadas. Porém, o caos está instalado cá e lá também, entre importadores. Matéria da imprensa internacional desta quarta-feira, dão conta de que Trump e clã Bolsonaro se aliam às gigantes Visa e Mastercard para acabar com Pix. A nova frente de batalha contra o Brasil, com “investigação” sobre Pix escancara o elo da ultradireita Trupista-bolsonarista na defesa dos interesses dos grandes banqueiros transnacionais. Na ofensinha contra o Brasil, Trump se baseia na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974.
O que mais chama atenção no documento americano é a inclusão do Pix, sistema de pagamentos desenvolvido em 2018 pelo Banco Central (governo de Michel Temer), aplicado em 2020, no de Bolsonaro, e aperfeiçoado na gestão de Lula. Trump considera o sistema um exemplo de “prática desleal”. Tudo isso, mostra que, pela primeira vez, os Estados Unidos, que nunca deram a mínima o “quintal” Brasil e a América Latina, passou a ver o principal país desse continente com tanta atenção. Principalmente, diante da liderança na região, a ampliação da influência do Brics no mundo e o peso da economia brasileira, amplamente apoiada pelo gigantismo da China, com quem os Estados Unidos disputam a hegemonia econômica e tecnológica do Planeta. Seja como for, vale perguntar: “Trump, por que está escroteando com o Brasil?”