
A derrocada da oligarquia sarneísta começou de fato em 9 de maio de 2014 em São Luís. No Hotel Luzeiros, o pré-candidato a governador Flávio Dino (PCdoB) se reuniu com o presidente nacional do PSDB, Aécio Neves, na presença dos líderes tucanos locais João Castelo e Sebastião Madeira (prefeito de Imperatriz) para anunciar o deputado federal Carlos Brandão candidato a vice-governador de sua chapa. Nascia ali o projeto da maior jogada política na história recente do Maranhão e do Brasil. Um partido com sobrenome “Comunista”, liderando a coligação de nove siglas de centro, impôs uma derrota acachapante ao sistema de poder há 49 anos, sob as ordens do ex-presidente José Sarney, centralizado no PMDB.
Aquela montagem política, 14 anos atrás, foi planejada por Dino com o PSDB tinha como objetivo “amansar” a imagem emblemática do Partido Comunista no estado historicamente dominado pelo coronelismo fincado no campo, sucedido por oligarquias urbanas – uma após outra. Roseana Sarney, quatro vezes no poder, indicou Lobão Filho (MDB) para liderar a coligação de 17 partidos, inclusive o PT, para o temeroso desafio. Passada a eleição, o PCdoB ganhou inédita projeção nacional e internacional pelo feito maranhense, enquanto o sarneísmo e o MDB afundaram na crise que se arrasta até hoje no Maranhão.
Sociologicamente, o período político dominado por Flávio Dino em três eleições consecutiva até 2022, não se enquadra, porém, na definição de oligarquia. Não passou por arranjo de um grupo político, centralizado no âmbito familiar. Mas em termos estruturais, o dinismo encampou grande parte dos partidos e lideranças do sarneísmo. Em 2026, com a aproximação do prazo de desincompatibilização e a definição dos candidatos, o grupo dinista, na oposição ao governo Brandão a partir de 2023, enfrenta o desafio de resistir ao peso da máquina controlada pelo governador até o fim do mandato.
Hoje a expectativa é saber quando o presidente Lula e o governador Brandão vão se reunir para tentar rearrumar o antigo grupo formado em 2014, ou um desfecho pelo qual passaram as oligarquias perante a realidade histórica. Lula pode até se dispor a ter dois palanques no Maranhão – ou nenhum: o de Orleans Brandão e o de Felipe Camarão, caso ele não desista da eleição de governador e parta para se juntar ao prefeito de São Luís, Eduardo Braide (PSD), podendo até trocar o PT por outra legenda. Mas o prefeito da capital também vive o amargor da indecisão e na mudez conveniência. Não comenta nada sobre o seu futuro político em 2026, quando faltam apenas escassos sete meses para as eleições. No âmbito do Executivo Maranhense, Brandão já definiu em 20 de março, o prazo para todos os secretários que forem concorrer às eleições deixarem os cargos. São aproximadamente 10 titulares de secretarias e uns dois adjuntos. Orleans Brandão é um único deles a concorrer à eleição majoritária do Palácio dos Leões. Se Felipe Camarão manter a candidatura ao governo, não precisa se desincompatibilizar. Por sua vez, o governador não indicou ainda em qual partido pretende assinar a ficha de filiação, já que está fora do PSB, hoje sob a direção estadual da senadora Ana Paula Nova Alves, mulher de Othelino Neto, opositor do governo do qual já foi até secretário em Brasília.
Outra questão em aberto no grupo liderado por Brandão é indicação do vice na chapa de Orleans e dos candidatos às duas vagas no Senado Federal. Diante de tantas indefinições, o mais provável é que o presidente Lula é quem vai dar a freada de arrumação sobre as eleições majoritárias do Maranhão, um dos redutos historicamente robustos em eleitores que o apoiam. Já o ministro do STF Flávio Dino acompanha de perto o desenrolar do processo pelo qual foi projetado em 2014 até chegar ao STF, e que agora passa por um revisionismo forçado. Não fala com Brandão nem Brandão se incomoda com isso, enquanto os entornos de cada um se digladiam como quem nunca estiveram juntos num projeto tão radical.