
A história do analfabetismo no Maranhão é a história de cada maranhense que nasce e vive fora da escola. E não são poucos. Nem os africanos trazidos para o Brasil eram todos escravos do analfabetismo. Muitos deles pertenciam a sociedades islamizadas ou letradas que dominavam a escritas em árabe ou em seus próprios idiomas. Até hoje os iletrados estão presentes aos milhões na sociedade brasileira e, aos milhares, na maranhense. Em 2016 a taxa de analfabetismo no estado era de 15,7%. Em 2025, o índice despencou para 10,9% de jovens de 15 anos ou mais – a segunda maior queda no país. Uma vitória e tanto.
É inacreditável, mas no Brasil do reinado de D. Pedro I, a Constituição Imperial de 1824 e as leis de 1854 proibiam expressamente que escravizados frequentassem escolas públicas, forçando o analfabetismo como forma de controle político. Como não havia contagem censitária, projeções indicam entre 1,5 e 2 milhões de escravizados, na população estimada em 3,8 e 5,3 milhões de habitantes. Dá para imaginar a origem da “cultura do analfabetismo” mantida pelos coronéis de patente comprada, depois pelos oligarcas do Norte e Nordeste e, hoje, no “coronelismo” eletrônico das fake news nas redes sociais.
Conta-se que, em campanha do voto pelo interior do Maranhão, o oligarca Vitorino Freire parou numa casinha à beira da estrada para almoçar e descansar. A moradora o atendeu muito bem com comida boa e rede limpa. No final da hospedagem, ela pediu ao senador um emprego para a filha. Vitorino marcou a data para a jovem comparecer a seu gabinete no Palácio dos Leões, onde despachava. No dia marcado, a mãe estava lá com a filha. Vitorino mandou o secretário do gabinete fazer o ato de nomeação como professora. “Mas a moça é analfabeta”, disse o servidor. Vitorino, sem pestanejar, ordenou: “Sem problema: nomeia a professora e ‘bata’ também o ato de aposentadoria”.
Hoje, o governo Carlos Brandão comemora a queda do analfabetismo no Maranhão. Mas não é de agora que se luta contra o mal dos apedeutas. Eleito governador em 1965 com a bandeira do “Maranhão Novo”, José Sarney prometia uma nova ordem econômica e social e integrar o estado ao “progresso” do Centro-Sul. O Maranhão tinha uma agricultura de toco, de pequenas roças de arroz, milho, feijão, mandioca e quebra do babaçu em larga escala pelas mulheres analfabetas, enquanto os maridos viviam da agricultura de subsistência e da pesca artesanal no litoral. A educação não era prioridade, porque analfabeto não votava.
Sarney colocou a Educação como prioridade num plano de três módulos: 1) TV Educativa para expandir o antigo curso ginasial de São Luís aos municípios próximos, com TV nas salas de aulas, transmissão de conteúdos previamente elaboradas e orientação de professores treinados; 2) o Projeto Bandeirante, para municípios do interior, sem aceso à televisão; e 3) o Projeto João de Barro, ofertando a alfabetização ao antigo “Primário” para a população rural. A intenção era preparar para o pretendido desenvolvimento. A TV Educativa tornou-se uma experiência-modelo no Brasil, estudada até no meio acadêmico.
Na Ditadura militar, os projetos de Sarney serviram de modelos do “Ginásio Orientado para o “Trabalho” do MEC. Já o “João de Barro” acabou faltando recursos para escola tradicionais e virou a campanha “De Pé no Chão também se Aprende a Ler”: as escolas em “barracões” de madeira, cobertos de palha, da própria comunidade. Também regime militar optou pelo Mobral para alfabetização em massa dentro ou fora das escolas; e o projeto Minerva, do MEC, com aulas a distância veiculadas via rádio a partir de 1970, tudo para combater o iletrismo. Paulo Freire, odiado pela direita, dizia que “o analfabetismo é uma castração dos homens e das mulheres, uma proibição que a sociedade organizada impõe às classes populares”.