
A Família Bolsonaro ou Clã Bolsonaro como se tornou conhecida, é um caso à parte na história contemporânea do Brasil. Desde quando assumiu o primeiro mandato parlamentar, em 1989, como vereador do Rio de Janeiro, Jair Bolsonaro foi deputado federal por 29 anos e presidente do Brasil em 2018. Desde então, a família tornou-se referencial na política, com o viés radical de direita, alinhada aos Estados Unidos e a favor do porte de armas. Bolsonaro, hoje preso em casa pelo STF a 27,5 anos, por tentativa de golpe de estado, não conseguiu evitar um rumoroso racha entre a esposa Michelle e os filhos da primeira mulher Flávio, Carlos e Eduardo, além de Renan, filho da segunda esposa.
A candidatura do senador Flávio Bolsonaro ao Palácio do Planalto está o centro da guerra que pode deixá-lo em apuros. Ocorre no momento em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva amplia a vantagem nas pesquisas de intenção de voto. Michelle Bolsonaro foi às redes sociais acusar o enteado de desrespeitá-la e de querer afastá-la das decisões políticas dentro e fora do clã. Revoltada, decidiu abandonar a direção do PL Mulher, depois de uma reunião de portas fechadas, terça-feira, 30/06, com o presidente do partido, Valdemar da Costa Neto. Ela abriu mão do salário de R$ 33,8 mil mensais e de concorrer ao Senado. Mas esta desistência do Senado seria apenas um jogo de marketing político ao seu reduto feminino.
A história do Brasil é fortemente influenciada pelo parentesco dentro da política. Desde a família imperial portuguesa que se instalou no país em 1808, fugindo de Napoleão Bonaparte, até hoje a cultura da política em família passou pelo ‘coronelismo’ e ficou impregnada nas oligarquias estaduais e municipais pelo país afora. Ao decidir aceitar casar-se com a princesa napolitana Teresa Cristina de Bourbon, o príncipe D. Pedro I entrou num arranjo político internacional, que resultou em decepções históricas, mas permitiu a garantia, buscada pelos seus conselheiros, da estabilidade política na sucessão da monarquia. No caso atual da política brasileira, o clã Bolsonaro custa caro ao Erário. Sacava até ontem R$ 120 mil, com os 38 mil pagos a Carlos Bolsonaro. A família embolsa por ano mais de R$ 3 milhões só do Fundo Partidário, com os R$ 33,8 que Michelle relaxou no PL Mulher. Carlos, que deixou mandato de vereador no Rio para fazer campanha ao Senado em SC, é o mais novo “contratado” do PL, enquanto o pai, mesmo preso, receber R$ 41 mil, além de R$ 11,9 mil como ex-capitão do Exército e aproximadamente R$ 80 mil ex-presidente da República. Os filhos dele todos são parlamentares – Flávio Bolsonaro (senador), Carlos (deputado estadual RJ) e Renan (vereador em Camburiú).
Mas o que alimenta a crise no clã Bolsonaro não é questão salarial. É ambição pelo poder, o bate-rebate de Michelle com os enteados, principalmente Flávio, definido pelo pai como candidato ao Planalto, quando a esposa estava pontuando alto nas pesquisas. Depois que ela expôs as divergências que fervilhavam nos bastidores, o racha ultrapassou as articulações sobre o apoio de Flávio à candidatura de Ciro Gomes (PDT) ao governo do Ceará, contra o senador Eduardo Girão (Novo), apoiado por Michelle. Em dois vídeos, ela escancarou o tamanho da crise que, aparentemente, a diminui-lhe o espaço político ao redor de Jair. Disse ter sido humilhada e desrespeitada em telefonema de Flávio. Como se pode perceber, a história política deste século tem um enredo surrealista. Lula está lutando pelo quarto mandato popular na Presidência, uma proeza única no Ocidente democrático, além de não pôr um único parente em qualquer mandato eletivo. José Sarney tem a carreira política mais sucedida no Brasil em séculos. Fez a filha Roseana quatro vezes governadora, senadora e deputada federal, e Sarney Filho, deputado estadual, federal por cinco mandatos e ministro. Flávio Dino, mesmo filho de ex-deputado, fez o contrário. Não colocou nenhum familiar na carreira política que o fez deputado federal, governador duas vezes e senador. Hoje é membro do Supremo Tribunal Federal e está fora da política.