
A violência das organizações criminosas no Brasil continua rendendo enorme debate nos três poderes da República, mas até agora nenhuma proposta objetiva sobre como expulsar as fações de seus territórios e o Estado ocupar os espaços. Portanto, parece perda de tempo o debate repetitivo sobre apoiar a matança dos 117 “soltados” do Comando Vermelho no Rio, ou homenagear a Polícia carioca pelo dia mais sangrento da história desse tipo de confronto no Brasil. O que a população exige é contenção do crime organizado seja no Rio de Janeiro, em São Paulo, Fortaleza ou nos confins da Amazônia. Ao invés de politizar o crime, os brasileiros querem ação conjugada, integrada, planejada e comandada para desmobilizá-lo.
As fações, criadas dentro do sistema prisional, se expandiram para as zonas urbanas e rurais, ultrapassaram as fronteiras, ampliaram as ações como empresas organizadas, se infiltraram na economia, na política e no aparelho do estado, para desafiar as instituições do mesmo estado. É uma engrenagem tão poderosa que, no confronto sangrento com 121 mortes, o Congresso dividido, cria a CPI do Crime Organizado, parte do Judiciário se cala, o governo tergiversa, o MP sai de cena e os governadores politizam o tema. Não resta dúvida de que esse debate de hoje vai dar rumo ao voto nas eleições gerais de 2026.
No Brasil, com sua dimensão continental, é tudo que o crime organizado precisa para se expandir e planejar suas ações conforme a realidade social e econômica de cada estado, cada cidade ou atividade lucrativa que surgir. As dezenas de organizações do crime contam com a omissão, a conivência e a falta de estrutura para um combate a altura do poder do crime. A falta de políticas de contenção, de dinheiro orçamentário, de gente preparada, de tecnologia adequada e aplicação das leis disponíveis são exemplo de fragilidade do Estado Brasileiro. Além de drones lançadores de granadas, o CV mostrou que fábrica de fuzis e metralhadoras, avanços o que o governo não os tem.Só nas favelas do Rio já foram realizadas mais de 45 operações policiais no combate a traficantes, milicianos com um saldo trágico de 404 vítimas dos tiroteios entre Polícia e bandidos, segundo relatório do Instituto Fogo Cruzado. Até o governo estadunidense de Donald Trump se solidarizou com os quatro policiais vítimas fatais do confronto no Rio. Vários ex-ministros da Justiça divulgaram uma carta pedindo ao presidente Lula que “assuma o comando” da guerra contra o crime organizado e crie o Ministério da Segurança Púbica após a “catástrofe” carioca.
Na audiência pública realizada quarta-feira (5), no Rio, o ministro do STF, Alexandre de Moraes ouviu representantes de diversas entidades de direitos humanos sobre a operação policial nas favelas do Alemão e Penha. A reunião ocorreu no âmbito da polêmica Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 635. Moraes anunciou que, por ordem anterior do Plenário do STF, a Polícia Federal instaurou inquérito para apurar dois aspectos específicos relacionados ao enfrentamento ao crime organizado: o funcionamento dos esquemas de lavagem de dinheiro no Rio de Janeiro e a infiltração de organizações criminosas no Poder Público. Sem dúvida, esse ponto, é colocar o dedo na ferida.
O procurador federal Nicolao Dino, irmão do ministro do STF Flávio Dino, representante da Procuradoria-Geral da República, disse que o Estado Brasileiro é cobrado por organismos internacionais devido ao elevado índice de letalidade policial. A OEA e a ONU já emitiram 368 recomendações ao Brasil sobre o tema. Ele quer o fortalecimento dos mecanismos de controle externo da atividade policial pelo MP e investigações com perícia técnica independente e análise rigorosa sobre o caso do Rio, que o presidente Lula classificou de “matança”. Enquanto isso, o Planalto pressiona o Congresso pela aprovação do PL Antifacção e a PEC da Segurança Pública, prioritárias para o enfrentamento ao crime organizado no Brasil, do qual o governo diz já ter retirado R$ 19,8 bilhões de suas mãos.