
O Centro de Lançamento de Alcântara (CLA) tem uma história marcada tanto por avanços tecnológicos na área espacial quanto um reveze trágico, além de conflitos sociais com as comunidades quilombolas e de pescadores do entorno. Desde sua inauguração em 1983, só agora, o CLA se prepara para realizar o primeiro lançamento comercial. A Força Aérea Brasileira (FAB) compartilha com a Agência Espacial Brasileira, a Operação Spaceward, entre 17 e 22 de dezembro, para lançar o foguete Hanbit-Nano, da empresa sul-coreana Innospace. Os testes de segurança do lançamento estão a todo vapor para que a primeira tentativa ocorra no próximo dia 17.
Sem dúvida é o passo mais avançado da tecnologia espacial brasileira fazer um lançamento tão importante a partir de Alcântara, cidade separada de São Luís apenas pela Baia de São Marcos. O coronel engenheiro Rogério Moreira Cazo é o coordenador da operação. Os testes indicaram a necessidade de aprimoramentos no veículo antes do voo. Esse tipo de ajuste, segundo ele, é comum em missões inaugurais e que o processo segue padrões estabelecidos para garantir precisão e segurança. O CLA cumpre seu papel de centro lançador, disponibilizando enorme esforço científico, financeiro e tecnológico para chegar à situação de hoje.
A prorrogação do período operacional também permitirá aprimoramentos no processamento dos sinais coletados do veículo, utilizados na avaliação de desempenho durante o lançamento. De acordo com o Diretor do CLA, Coronel Aviador Clóvis Martins de Souza, a decisão foi tomada de forma conjunta e fundamentada em avaliações técnicas. Ele afirma que o centro permanece totalmente operacional e apto a dar continuidade às etapas previstas. Significa que a Innospace concluiu o ensaio geral na plataforma, simulando uma operação real. Foi incluído o deslocamento do veículo até a plataforma, preparativos de lançamento, validação das sequências e procedimentos de retorno. A empresa informou que os testes dos sistemas de pressão, elétrica, controle e integração entre veículo e plataforma foram concluídos. Todos os procedimentos são conduzidos pelo Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) e marca a entrada do Brasil no mercado global de lançamentos espaciais, abrindo novos caminhos para geração de renda e investimento científico no segmento. Após o edital de chamada da AEB em 2020, a Innospace foi selecionada para operar no CLA e assinou contrato com o Comando da Aeronáutica em 2022. O foguete HANBIT-Nano transportará cinco satélites e três experimentos, desenvolvidos por instituições e empresas do Brasil e da Índia.
A Agência Espacial Brasileira (AEB), órgão central do Sistema Nacional de Desenvolvimento das Atividades Espaciais (SINDAE), é uma autarquia pública vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), responsável por formular, coordenar e executar a Política Espacial Brasileira. Desde a sua criação, em 1994, a Agência trabalha para viabilizar os esforços do Estado Brasileiro na promoção do bem-estar da sociedade, por meio do emprego soberano do setor espacial. Todo esse esforço tecnológico tem importância para a imagem do Brasil no mundo e o Maranhão está incluído nesse processo pelo oferecimento do local estratégico a esse tipo de atividade cada vez mais disputada.
A instalação inicial em 1983, do Núcleo do Centro de Lançamento de Alcântara foi escolhida por sua localização estratégica próxima à Linha do Equador, que permite economia de combustíveis. No entanto, a história do CLA é marcada pela desagregação de comunidades quilombolas para agrovilas, que até hoje enfrentam problemas sociais de toda ordem. Além disso, o CLA sofreu trágico acidente em 2003, numa explosão às vésperas de lançamentos em parceria com a Ucrânia. Morreram 21 técnicos e atrasou o programa espacial brasileiro em sucessivos governos de visões diferentes sobre a sua importância econômica e estratégica.