
Nem quando esteve na Presidência da República, o ex-capitão Jair Messias Bolsonaro, seus filhos e a esposa Michelle estiveram tão evidentes no noticiário nacional e até no exterior. Mas não só no noticiário político que a palavra Bolsonaro está em alta. Desde 2023, nos relatórios da Polícia Federal sobre a trama golpista contra o Estado de Direito, o nome do chefe do Clã Bolsonaro apareceu 93 vezes em 105 páginas. Em outro documento da PF sobre o mesmo tema, liberado pelo STF em novembro de 2024, o nome do ex-presidente apareceu 530 vezes, mas Bolsonaro até hoje rebate sua participação dizendo que nas investigações são perseguição e que a palavra “golpe” nunca esteve no dicionário.
Nas edições de ontem, 23, os jornais do Rio e São Paulo não deixaram o nome Bolsonaro fora de suas manchetes, nas análise e artigos. No editorial, a Folha de S. Paulo registra que “só Trump e Bolsonaro lucram com a força bruta”. Em O Globo, o articulista Lauro Jardim crava: “Por que Claudio Castro desistiu de dar cargo a Eduardo Bolsonaro”. Tiago Prado também vai na mesma linha: “Família Bolsonaro resiste a Tarcísio e vive clima de prévia interna”; Bernardo Bello Franco: “Em três dias, Bolsonaro transforma tornozeleira em ativo eleitoral”; e o Correi Braziliense, no Distrito Federal, diz na manchete: “Bolsonaro evita imprensa e segue para sede do PL, a espera decisão do STF”.
Quando o noticiário trata do tarifaço de Donald Trump sobre as importações brasileiras em pressão pela anistia do ex-presidente no STF, novamente o nome Bolsonaro está no mesmo patamar de importância jornalística, como fez o Correio Braziliense sobre o dano irreversível à economia, ao manchetear: “Tarifaço pode tirar R$ 175 bi da economia e 1,3 milhão de empregos do Brasil”.
Nos sites de notícia – da esquerda à direita – o nome Bolsonaro bomba nas matérias de capa e nas redes, principalmente depois que a PF o monitora por tornozeleira eletrônica, autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, o alvo preferencial do ódio do clã Bolsonaro, dos bolsonaristas, de Donaldo Trump e de parte do Congresso. Ninguém falou mais em inflação, aumento de salário, corte de gastos do governo federal e nem do preço da carne que, com o tarifaço de 50% nos Estados Unidos, o produto deve inundar os açougues brasileiros.
Mas é Bolsonaro que está com tudo nas mídias. Uma pesquisa da agência Nexus constatou, porém que, após a tornozeleira, até a esquerda, enfim, superou a direita em engajamento no X, de Elon Musk. Entre as 9h de segunda-feira (21) e o mesmo horário de terça (22), expressões ligadas à esquerda dominaram os trending topics.
Com tanta notícia sobre sucessivos temas tão explosivos, quem perde é a população em meio à guerra selvagem da desinformação nas mídias eletrônicas. Por exemplo: A Nexus apurou que a expressão “Chuva de Lula” liderou o ranking de engajamento (interação e envolvimento dos usuários) nas redes sociais com um milhão de menções, seguida por “democracia sempre” (5º lugar, com 411 mil) e “Eduardo Bolsonaro cassado” (9º lugar, com 110 mil postagens). Não é segredo que todo esse furdunço nas mídias e na vida real do país tem tudo a ver com todo mundo. Desde o humilde trabalhador da limpeza pública até o magnata banqueiro e o exportador de qualquer produto para os Estados Unidos.
Se o Brasil não fosse uma democracia robusta e uma economia em franco processo de evolução no contexto mundial, aonde estaríamos em meio a essa torrente política? A guerra política entre bolsonaristas e lulistas é violentamente danosa ao Brasil. O país ainda não mergulhou numa hecatombe social e econômica por ter instituições fortes, um potencial em expansão e um povo sem medo.
Nem as mazelas da atuação do Congresso Nacional sobre momentos tão grave, conseguem impedir o país de avançar. Mas a divisão ideológica no Brasil afeta a vida do cidadão em diversos níveis de importância. Desde o acesso a serviços públicos até as relações sociais, o comércio internacional, a produção local e a participação política da sociedade nas decisões governamentais. Todos falam em diálogo, mas as falas estão longe de um contexto civilizatório e construtivo.