
A campanha eleitoral ainda nem começou no calendário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o ambiente político já vive à tormenta da dúvida, da polêmica e da incerteza sobre os números da enxurrada de pesquisas eleitorais, disseminadas nos meios de comunicação. E não adianta recorrer à lógica matemática, à credibilidade dos institutos ou à incredulidade dos erros do passado, pois a política eleitoral com suas expectativas tem uma dinâmica tão alucinante que mais aparece apostar na loteria. No Maranhão, a disputa do governo entre Orleans Brandão (MDB) e Eduardo Braide (PSD) já faz o ambiente virar em autêntico Fla-Flu.
Como de política e futebol o brasileiro conhece mais do que o vizinho ao lado, as pesquisas acabam por acirrar mais os ânimos do que informar ao eleitor sobre os candidatos. Será mesmo que Orleans e Braide estão tecnicamente empatados com a diferença de décimos nas intenções de voto, como revelam as duas últimas pesquisas da Econométrica e do Inop? Além de apontar um inarredável ambiente que, persistindo até o fim de campanha, levará a um segundo turno, as pesquisas precisam ser analisadas também pelo aspecto da rejeição de cada um, dos eleitores indecisos, da faixa social, de renda, de cor, etc.
Dá para acreditar mesmo nas pesquisas? Elas, pelo mundo afora, erram mais do que acertam, mas nunca deixam de influenciar o eleitorado. Como acreditar, por exemplo, que uma pesquisa com duas mil pessoas pode estimar os votos de 156 milhões de eleitores? Outra indagação: como um certo candidato arrasta multidões por onde passa e mesmo assim, aparece atrás de quem não mostra isso? E por que os resultados das urnas nem sempre batem com as sondagens? Em 2022, nenhuma pesquisa cogitou a eleição de Carlos Brandão no 1º turno, e ele ganhou. Muito menos que Weverton Rocha (PDT) perderia nas urnas para Lahesio Bonfim, que ficou em segundo lugar.
Em uma das últimas pesquisas de 2022, divulgada em 28 de setembro, Brandão tinha 39% contra 28% de Weverton e 19% de Lahesio. Só que, o apurado das urnas eleitorais nem de longe se compara com a pesquisa. Brandão teve 51%, Lahesio quase 25% e Weverton quase 21%. Sabendo como o poder das pesquisas é elevado, o TSE entrou em campo. Não basta dizer “metodologia própria” e publicar um gráfico bonito. O registro exige informações completas que permitam auditabilidade: identificação de contratante, valor e origem dos recursos, período de realização, metodologia, plano amostral com parâmetros estatísticos, mecanismos internos de controle, questionário integral e documentação fiscal correlata.
Os especialistas costumam dizer que o registro da pesquisa na Justiça Eleitoral não é “selo de qualidade”, mas descumprimento costuma ser “selo de problema”. Significa que há uma distinção bem estabelecida: o procedimento não significa chancela do mérito do resultado. Ele estabelece um padrão de transparência, com possibilidade de controle posterior. Por isso, o sistema abre espaço para a atuação dos legitimados, como partidos, candidatos e Ministério Público, que podem impugnar o registro ou a divulgação e requerer providências cabíveis quando houver desconformidades. E discrepâncias notáveis.
Como o Brasil projeta hoje a eleição presidencial mais polarizada da história, com a divisão radicalizada do eleitorado de esquerda e de direita, o descrédito é o mesmo que atingiu até a ciência em 2019/2021. Na pandemia, as vacinas entraram na polarização política e dividiu boa parte da sociedade brasileira. Assim, também, essa descrença chega às pesquisas eleitorais, num cenário suscetível a proliferação das fake news, instrumentalizadas nas ferramentas de inteligência artificial. Portanto, a pesquisas não é feita nem para errar nem para acertar na mosca. É um prognóstico estatístico pelo qual eleitor pode mudar o voto ou não votar até na hora de digitar a tecla da urna eletrônica.