
O mundo todo trava em Belém (PA), durante duas semanas, uma agenda ampla, cansativa e cara sobre o futuro do Planeta, do clima e de sua população. A Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, ou simplesmente CopP30 é o maior evento para 192 países, cientistas, governos, ambientalistas e ativistas debaterem a vida na terra. Belém virou uma Torre de Babel, com dezenas de idiomas em busca de um entendimento em árabe, chinês (mandarim), espanhol, francês, inglês e russo. O Português entrou por ser a língua do país anfitrião e é nele que a multidão de estrangeiros tenta compreender o que se passa na cultura, na gastronomia, no ambiente, na vida dos paraenses amazônicos e do mundo atual.
No gancho desse debate anual ao redor do mundo, entidades, cientistas, líderes políticos, indígenas, ribeirinhos, quilombolas, governo e empresas de tecnologia estão lá para defender seus interesses. Um deles, tão urgente quanto a temperatura dos oceanos e a desertificação na Amazônia, é o poder das motosserras e da lâmina dos tratores sobre as florestas, os cerrados e a cantiga do Nordeste. São ferramentas de impacto histórico que mancham de sangue, a história do Maranhão e o Pará, estados interligados pelo mesmo processo de violência no campo, com mortes contadas, anualmente, às centenas.
O Maranhão em 2024 foi o estado campeão nacional de conflitos pela posse da terra. Um relatório da CPT sobre o tema, lançado em abril de 2025, registra 363 ocorrências de violência contra comunidades rurais. No Brasil, onde o agro dá as cartas nos balanços das exportações, na composição do Produto Interno Bruto (PIB) e no orçamento federal, que disponibilizou R$ 516,2 bilhões no Plano Safra 2025/2026, cerca de 900 mil pessoas foram impactadas em conflitos no campo. Nem em 2020, no auge da pandemia de Covid, a violência não arrefeceu no meio rural do Estado. Enquanto faltavam vagas nos cemitérios urbanos, no meio rural a mortandade era de outra forma.
O Maranhão tem 79,3% dentro da Amazônia Legal, região cujas florestas são chamadas de “pulmão do mundo”. Ao discursar na abertura da Cop30, o presidente Lula disse que “é mais barato financiar o clima do que gastar com guerras”. Não resta dúvida de que a Amazônia é um ambiente marcada por simbolismos que o mundo está descobrindo. Não é apenas a imensidão de sua natureza, com biodiversidade e rios. É também conexão mítica com a espiritualidade dos indígenas, a resistências de seus habitantes, a importância planetária de reguladora do clima e dos recursos florestais e minerais. É tudo entrelaçado num imenso laboratório para estudos da vida, da cultura e da política.
O Maranhão precisa com urgência aprender lições da Cop30 para transformar o meio ambiente, combater a pobreza e reduzir a violência no campo, adotando tecnologias alternativas à predadora agricultura de subsistência. O assoreamento do Rio Itapecuru, com a devastação das matas ciliares e a poluição de suas águas pelas cidades que corta tem prazo de validade. Se nada for feito, a crise do abastecimento de água que já afeta 60% da população de São Luís só tende a se agravar em outras cidades. O rio maranhense pede socorro e os campos inundáveis da Baixada estão virando um deserto de terras rachadas.
A Amazônia do Maranhão e a mundial correm perigo em diferentes áreas, todas interligadas à devastação florestal, a falta de uma política ambiental responsável e inteligente, a ganância sobre suas terras agricultáveis pelo agro, a grilagem e a violência no campo não esperam por muito tempo. O mundo está conhecendo um pouco da Amazônia, está discutindo o clima, as mazelas do meio ambiente e a incerteza de um futuro que está bem ali adiante. Tudo resulta na violência implacável sobre a natureza num dos estados de maior potencial para crescer, enfrentar as mazelas ambientais e combater a pobreza que persiste como uma praga bíblica.