
Vou começar o texto de hoje (24/09) fazendo uma indagação que me parece pertinente: Por que os discursos de Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil obteve mais repercussão do que o do presidente norte-americano, Donald Trump, anfitrião do evento? O interesse não foi por Lula ser o primeiro orador, nem em razão dos 80 anos da Organização das Nações Unidas (ONU). Mas sim pelo que Lula tinha a dizer perante 150 chefes de Estado, sobre a crise comercial e de interferência dos Estados Unidos em assuntos internos do Brasil, como a punição contra membros do Supremo Tribunal Federal e outras autoridades, caso único na história de mais de 200 anos nas relações entre os dois países.
Ovacionado em várias ocasiões, Lula fez um discurso histórico, nas avaliações da Imprensa internacional e especialistas mundo afora. Mandou recados duros para Donaldo Trump com este: “A democracia falha quando mulheres ganham menos que os homens ou morrem pelas mãos de parceiros. Perde quando fecha portas e culpa migrantes pelas mazelas do mundo. A pobreza é tão inimiga da democracia quanto o extremismo”. Ontem, a imagem de Trump assistindo ao discurso do colega brasileiro, de uma salinha onde esperava a sua vez, foi divulgada pela ONU. Lula foi duro, mas diplomático, quando falou do tarifaço contra o Brasil, a “inegociável” soberania do país, até tocar no complexo tema das guerras.
O The New York Times destacou a referência de Lula às tentativas de Trump pressionar o Brasil a arquivar o processo do golpe de estado, articulado por Jair Bolsonaro, cujas intervenções no Judiciário foram repelidas como “inaceitáveis”. Ele lembrou que neste ano o Brasil voltou a sair do Mapa da Fome, pontuou que muitas nações ainda padecem deste mal. “No mundo, há 670 milhões de pessoas famintas. A única guerra de que todos podem sair vencedores é a que travamos contra a fome e a pobreza. Esse é o objetivo da Aliança Global que lançamos no G20, que já conta com o apoio de 103 países”, disse. Também chamaram atenção, as interrupções, por aplausos durante os 15 minutos fala do líder brasileiro.
Há muito tempo não se via tamanho apoio da imprensa nacional a um discurso de Lula. Principalmente, pelos recados que mandou à maior potência militar do mundo, cujo líder Donald Trump se dispôs a manter um encontro com o similar latino-americano, articulado na noite anterior pelos diplomatas dos dois lados. Portanto, Trump não “esbarrou” em Lula no corredor por acaso. Foi tudo agendado antes, os dois se abraçaram e, em seguida, o americano preferiu “cortar” o seu discurso para citar o encontro com Lula, de quem disse ter gostado muito e que rolou uma “ótima química” entre ambos. Em 39 segundos, deu até para Trump marcar um encontro, na próxima semana com o petista.
Como no terreno da política ninguém anda olhando para o céu e esquecendo o que se passa na terra de quem tem o título de eleitor, o Lula conseguiu na reunião da ONU, ser bem melhor do que costuma ser. Se sua aprovação crescer nas pesquisa, significa que ele rompeu a bolha que o desgastou por longo tempo na complicada relação com o Congresso e, mais recente, pela falta de um canal que o levasse a Trump. Com o encontro quebra-gelo de terça-feira, somado à posição coerente, corajosa e bem elaborada de sua fala, Lula pode até sair do atual sufoco político interna – graças à maliciosa química de Trump.
É, porém, pouco provável, que Trump tenha largado a mão de Jair Bolsonaro para abraçar Lula num momento crucial perante a ONU. Porém, quando se trata do presidente estadunidense, a imprevisibilidade e irresponsabilidade nas suas atitudes, o mais prudente para Lula é confiar desconfiando. Mesmo assim, foi bom alvitre ver Trump falar (mal) do Brasil, mas ignorar o extremista do PL em prisão domiciliar. Obviamente, um gesto de lucidez ao sinalizar que os negócios de Estado são valem mais do que persistir no rescaldo de uma crise antidemocrática no país em que ele já percebeu que suas intromissões inoportunas não apagaram o fogaréu.