tributo

90 anos do Humanista Luiz Alfredo Netto Guterres Soares

Petrônio Alves - Advogado, jornalista e ex-Juiz Classista na 3ª Vara do Trabalho de São Luís

Luiz Alfredo Netto Guterres Soares, homem de Fé Cristã comparável à dos Santos Mártires, algo que em nada contrastou com o seu ideal humanista, vivido e vivenciado em todos os tempos com a valorização do ser humano, sua razão, autonomia e potencial científicos. Trabalhador incansável, intelectual, poeta, filósofo, jornalista, jurista; o filho, o esposo, o pai, irmão e o companheiro… Esses são alguns dos adjetivos a que nos permitimos qualificar esse grande ser humano que nasceu em São Luís no dia 25 de novembro de 1935, e nos deixou em 04 de julho de 2016, aos 80 anos de idade.

Ele fez da sua vida inteira, desde os 13 anos, quando ingressou no mundo do trabalho industrial, e até no enfrentamento dos problemas de saúde, um sacerdócio para o trabalho. Foi a melhor herança recebida do seu pai, Durval Soares, a quem nutria um amor de filho para além de carinhoso, tendo resumido essa paixão com as palavras tão simples, mas de uma essência humanista incomparável: “Alma de açúcar num coração de ouro”. Era assim como admirava e seguia os passos e os exemplos de seu pai na lida dos bons ensinamentos recebidos na vida familiar.

A sua verve intelectual foi o somatório do encontro de duas almas doces (Durval e Joaquina Rosa), como carinhosamente se referia aos genitores. Os pendores naturais para o dom da cultura universal, fizeram de seus pais exemplos de referência, a origem e a extremidade do caminho da cultura humanista percorrido por Netto Guterres, até seus últimos dias. Aos 12 anos de idade, esse Sonhador (definição do seu filho Francisco de Assis) iniciava a sua vertente literária com  seus primeiros ensaios e poemas de conteúdo romântico, mas com a marca do humanismo palpitante de sonhos por um mundo justo, aliado à bondade, à liberdade e à moral, como se encontra na essência das suas obras legadas ao orbe da cultura e do trabalho (Taça Vazia, Vagalume, Canto no Ocaso, Canto Telúrico para São Luís, Ex Corde, Umbrais do Meu Parnaso), e tantas outras que têm o honroso selo e a chancela do brilhantismo intelectual de quem ocupou a Cadeira nº 39 do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão.

Humanista-pai, a sua ternura foi um espelho de dignidade para muitos. Ele era o olhar do melhor abrigo sobre a sua prole: um brilho especial e peculiar que espargia só o amor e os cuidados para com cada integrante da linhagem sêxtupla tão querida e amada, a qual cantava em versos, e em Orações rogava intensamente o Amor Divino da Proteção, que nunca o abandonou, mesmo na grande tragédia de uma perda inesperada em sua vida (e que somente o Senhor Deus o explica durante as Cerimônias Celestiais. E como todo Humanista de escola, o visionário filósofo também profetizou, no Santuário da Fé e do Amor paterno, quão longe divisava as vitórias do presente e do futuro da filha amada.

O Humanista-esposo, esse jamais haveria de olvidar da sua tão Donairosa dos longos anos de caminhares ao sol, chuvas e todos os luares; e que foi preparar-lhe a recepção no universo celestial, dois meses antes da sua partida.

Ah! O Humanista e Jurista, este deixou a sua marca naquele exato espaço onde tudo começou e apreendeu na vida: no mundo do trabalho. Fomos companheiros na representação classista da Justiça do Trabalho. Ele foi desembargador classista no TRT da 16ª Região, representando os empregadores, e depois (como nós), serviu no primeiro grau, na Vara Trabalhista do Município de Bacabal.

Sem uma regular formação jurídica, era um autodidata, arguto, refinado e versátil negociador em conflitos trabalhistas; muito sensível aos diversos problemas que se lhe apareciam nas controvertidas lides da justiça obreira, tendo proferido votos justos e de relevância, com a da observância rigorosa da Lei e da fé públicas, com firme apego à virtude e à dignidade do cargo de julgador.

O nosso carinho por ele era igual a de um filho. Ele tinha quase trinta anos a mais;  brincávamos e ríamos sempre que o destino nos permitia um eventual e rápido encontro nos átrios dos fóruns trabalhistas, oportunidade em que dispensava-lhe o tratamento de Grande Jurista, sempre comparando-lhe ao John Marshall (jurista e político americano) que presidiu a Suprema Corte do seu país por trinta e quatro anos, e, ao que sabemos, apresentava, além do bom humor, o perfil físico assemelhado ao do nosso Humanista: ‘alto, delgado, ereto, de olhos pretos e  brilhantes, e de cabelos pretos ainda na velhice’.

O nosso Deus e a natureza dotaram Luiz Alfredo Netto Guterres Soares de um espírito espontâneo e generoso como o florescimento da planta. Sempre cumpridor de suas missões; a retíssima humildade e a honestidade invariável lhe permitiram ver o resplandecer de tudo que laborou no seu tempo.

Nenhuma controvérsia ou atos corriqueiros do dia a dia obscureceram os caminhos desse homem bom e educado, mas incisivo nos bons e saudáveis debates e embates que, nas arenas da vida, onde sempre digladiou, forjado nos melhores argumentos e nos cenários que a cultura humanista proporcionou- lhe, até os instantes finais de seus últimos suspiros ex Corde! Celebremos, pois, os 90 anos do nosso Humanista, afinal, até hoje, ninguém conseguiu provar que a vida não continua!

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Petrônio Alves
Petrônio Alves Colunista