
Os óculos de leitura, com lentes cada vez mais grossas, repousam sobre uma mesa totalmente gasta. Ele esfrega os olhos, sentindo o peso de três ou quatro décadas de decisões. Quarenta anos. Uma vida inteira medida em volumes de processos, sentenças proferidas e vidas sentenciadas.
Os dedos, outrora ágeis na máquina de escrever e depois adaptados à força ao teclado do computador, hoje ostentam calos invisíveis, mas dolorosos: cicatrizes de uma rotina que nunca soube o que é um fim de semana.
Diziam-lhe, na juventude, que a magistratura era a garantia de um outono tranquilo. Que o sacrifício de isolar-se do mundo, de abdicar de amizades em nome da imparcialidade e de carregar o peso da caneta valeria a pena no fim da estrada.
A velhice chegou, de fato. Todavia, não trouxe a paz prometida; trouxe a conta.
Enquanto o corpo cobra o preço dos anos de sedentarismo e das noites mal dormidas, a realidade financeira impõe uma aritmética asfixiante. O custo de vida não caminha; corre, e em velocidade diametralmente oposta à estagnação dos proventos de quem se dedicou ao Estado.
O plano de saúde, ironicamente mais necessário agora que as “juntas” falham e o coração exige cuidados, transformou-se em um leão faminto. Consome uma fatia pornográfica do subsídio, como se punisse o magistrado por ousar envelhecer.
Na mesa de cabeceira, os códigos jurídicos foram substituídos por caixas de remédios de uso contínuo: hipertensão, colesterol, dores crônicas na coluna. Cada receita médica representa um sobressalto no orçamento.
A moradia, a manutenção de uma vida digna e a inflação do supermercado sobem de elevador, enquanto a remuneração, corroída pelo tempo e pelo congelamento, desce de escada.
A justiça passa a ser uma palavra abstrata quando o homem que passou a vida aplicando-a percebe que o próprio Estado é injusto com o seu passado.
Olhar para o contracheque atual é um exercício de melancolia. Aquele jovem juiz substituto que cruzava o Estado para assumir comarcas distantes, cheio de brio e idealismo, não reconheceria o veterano que hoje precisa cortar despesas básicas para fazer o mês caber no bolso.
A sensação não é apenas de aperto financeiro; é de abandono. É perceber que, para o sistema, o juiz que envelhece se torna um fardo, uma estatística previdenciária a ser reduzida.
Ele se levanta devagar, sentindo a pontada familiar na lombar. Olha para o espelho do banheiro e vê os cabelos brancos, as linhas profundas na testa, marcas desenhadas pelos dilemas humanos que precisou resolver.
Deu o seu melhor para o país. Entregou sua juventude, sua saúde e sua mente. Agora, no crepúsculo da carreira, resta-lhe a ironia de ter protegido o direito de tantos enquanto assiste, de mãos atadas, à perda da dignidade dos próprios dias.
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