educação e ensino

Semeador de permanências

Natalino Salgado Filho - Professor Emérito da Universidade Federal do Maranhão

Ao receber o título de Professor Emérito da Universidade Federal do Maranhão, vivi um instante raro em que o passado se reconcilia com o presente e ambos se abrem para o futuro. Não encaro essa honraria como um encerramento, mas como um respiro, um símbolo de continuidade. A palavra “emérito”, que vem do latim emeritus, não significa aposentadoria, mas aquele que cumpriu seu merecimento e segue digno de servir. É assim que me sinto: ainda servidor, ainda aprendiz, ainda inquieto diante do mistério do saber.

A gratidão é o sentimento que dá forma a este momento. Elevo meu pensamento aos Céus, em reconhecimento ao meu Criador, pois como disse o Apóstolo São Paulo, é nele que nos movemos, existimos e vivemos. Guiado por esse sentimento, conduzi minha trajetória. Sou grato à minha família, que me foi abrigo e alicerce. Aos meus pais que não estão mais aqui, Natalino Salgado e Ivete Caldeira Salgado, base de minhas crenças e afetos. À minha esposa, Bernardete Leal Salgado, aos meus filhos Christiana e João Vítor; minha nora Isabel, meus netos Thereza, Cecília e Bernardo, porto, bússola e abrigo; meus irmãos e irmãs, sobrinhos e parentes

Agradeço aos professores que nortearam minha caminhada, aos colegas do Centro de Nefrologia do Maranhão, especialmente à técnica Gertrudes, presente na primeira hemodiálise realizada no estado, e aos pacientes que me ensinam diariamente. Sou grato à UFMA, casa do pensamento e da esperança, onde vi gerações nascerem para o conhecimento. Reconheço o papel dos Professores Doutores Fernando Silva e Joyce Santos Lages, que participaram da proposição do meu nome, e lembro com reverência da profecia de Dom Delgado sobre a criação da cidade universitária, sonho que se tornou realidade em minha gestão.

O Hospital Universitário da UFMA é uma das maiores estações da minha vida. Ali fiz meu internato, retornei como médico e fui diretor. Hoje, essa instituição é referência nacional, com excelência no atendimento e na formação de profissionais, especialmente durante a pandemia. A todos os amigos e estudantes que encontrei nessa jornada, minha gratidão eterna.

Recordo com carinho minha origem em Cururupu, onde aprendi a olhar antes de falar, servir antes de ser servido, perguntar antes de concluir. A Medicina me ensinou que cuidar vai além da técnica, é uma forma de amor que exige precisão, ciência e fé. Entre o hospital e a sala de aula, entre a dor do outro e a vontade de compreender, encontrei meu sentido.

Em 1978, realizamos a primeira hemodiálise no Maranhão, um gesto inaugural que abriu caminho à Nefrologia no estado. Aprendi que a Medicina é arte guiada pela compaixão, e o magistério é sua parente próxima: ensina, inspira, forma. Médico e professor são dois nomes de um mesmo serviço: cuidar da vida e despertar inteligências.

Na UFMA, acompanhei o florescimento de pessoas, cursos, laboratórios e ideias. Fui reitor em três períodos e aprendi que liderar é servir. Toda conquista é obra de muitos. Como médico, vi a fragilidade que nos iguala. Como professor, entendi que cada aula é semente no tempo. Como gestor, confirmei que confiança e colegialidade sustentam qualquer avanço.

Rubem Alves disse que ensinar é um exercício de imortalidade. Talvez o emérito seja isso: permanecer sem estar, sobreviver em forma de legado. Nietzsche afirmou que “quem tem um porquê enfrenta quase qualquer como.” O meu porquê sempre foi servir à vida. Medicina e Educação são minhas formas de oração.

Mesmo aposentado da sala de aula, sigo comprometido com o magistério. A boa educação é moeda de ouro, como disse Padre Vieira. Ser professor é tocar a alma do estudante, abrir espaços de humanidade. Cada aluno é um prolongamento da nossa vida. O maior legado não está nos títulos, mas na qualidade humana dos alunos que ajudamos a formar.

Guardei a fé em Deus, na ciência, na educação e no ser humano que aprende e recomeça. Continuo acreditando nas pessoas, pedindo a Deus que me permita enxergar luz onde outros veem escuridão. Que a universidade siga sendo catedral do saber e altar de esperança. Que o Hospital Universitário continue sendo santuário onde ciência e compaixão se entrelaçam.

Sinto hoje a mesma alegria que outros sentiram ao receber este título. Desejo que todos nós sejamos semeadores de permanências, deixando o caminho mais claro para os que virão.