
Professores apontam caminhos para minimizar o assédio moral, a precarização e o mal-estar docente em uma “escola técnica” no sul do maranhão.

Enquanto o trabalho dos professores é exaltado na mídia e nas campanhas políticas, estes mesmos profissionais do desenvolvimento humano estão sendo desvalorizados, estigmatizados e ultrajados dentro das escolas. De acordo com Patto (2010, p. 10), somente o cotidiano escolar é capaz de revelar o extraordinário lado amargo da escola pública; “no seu interior, a maior necessidade torna-se vulgar, a ofensa e a desqualificação tornam-se triviais”. Parafraseando Patto (2010), a escola pública, que deveria ser um “lugar” agradável, de entendimento e de amor, tornou-se um ambiente hostil em razão de muitos gestores escolares não terem conhecimentos pedagógicos tampouco de gestão. Faltam-lhes, ainda, empatia, inteligência emocional e capacidade de resolver conflitos. Um exemplo bem nítido desses gestores é a administração da “Escola Técnica” (nome fictício). A referida gestão tem um perfil ditatorial: age fazendo retaliações contra aqueles que questionam as determinações autoritárias dela. As características de um ditador podem ser compreendidas no livro Hitler: o perfil de um ditador, de David Welch (2011). Nesse sentido, o assédio moral vivido pelos professores tem como previsão alarmante um déficit de 235 mil professores na educação básica até 2040.
O estudo revela que a gestão da “Escola Técnica” é gerencial, está centralizada no papel do diretor e em seu poder segundo suas crenças e atitudes, numa visão exclusivamente técnica do cargo. Nesse sentido, Lück et al. (1998) asseguram que uma gestão vertical aliena a comunidade educativa e desestimula a participação, descomprometendo professores e funcionários com o trabalho educativo; logo, o fato de gestores se colocarem acima dos professores fragmenta o aprendizado do aluno e incentiva um relacionamento de adversidade. Na referida instituição, este modelo de gestão ocasiona constrangimentos e até assédio moral em relação aos professores. Essas intimidações vividas na escola, somadas a baixos salários, sobrecarga de trabalho, terceirização do trabalho dos educadores, desinteresse dos alunos pelos conteúdos escolares e o menosprezo da profissão docente pelos alunos, pais, gestores e sociedade, causam desestímulo, tristeza, depressão e outras doenças, incluindo ansiedade, obesidade, estafa, cansaço, fadiga e dores de cabeça. Diante dessas enfermidades, foram listadas estratégias que devem ser utilizadas no interior da instituição para amenizar o mal-estar docente, como: inexistência de assédio aos professores por parte dos alunos no decorrer dos Conselhos de Classe, valorização do trabalho docente, boa estrutura escolar (materiais tecnológicos) e impedimento à perseguição, humilhação e desprezo por parte da gestão.
Lück et al. (1998) afirmam, também, que em apenas 3 anos de funcionamento já saíram aproximadamente 30 professores da “Escola Técnica”. Apontam, igualmente, para o bem comum de todos, a necessidade da realização de reuniões periódicas para que sejam ouvidos os anseios do corpo docente, rodas de conversa e socialização dos problemas e necessidades da escola.
De acordo com Aguiar (2014), ser um bom gestor é ter um perfil profissional e estar preparado para exercer a função com base no diálogo e no consenso. O gestor que acredita que está fazendo um “bom trabalho”, apresentando uma postura burocrática e centralizadora, esbravejando para toda a comunidade escolar as determinações vindas das Instâncias Superiores de Ensino, às vezes afrontando, demitindo, desonrando e praticando violência moral contra os professores, o que resulta na revolta destes contra as autoridades educacionais e os representantes políticos do Estado, não está realizando um “bom trabalho”; está, na verdade, fazendo um “papelzinho ridículo”, como leciona Saint-Exupéry no livro O pequeno príncipe (2002), porque a função do gestor é trabalhar com sua equipe, envolvendo toda a comunidade escolar nos trabalhos e nos processos
decisórios. Sabe-se, porém, que todo ambiente de trabalho apresenta problemas, mas em uma escola com uma gestão eficaz estes não têm grande importância, pois há um clima de confiança e companheirismo e todos os obstáculos são resolvidos com facilidade, uma vez que todas as atitudes realizadas pela gestão dessa instituição vão na contramão dos princípios da dignidade da pessoa humana (artigo 1º, III), da igualdade (artigo 4º, inciso VIII) e da liberdade (artigo 5º) (Brasil, 1988).
Nesse sentido, Lück et al. (1998), baseados no pensamento de Likert (1971), afirmam que as abordagens dos gestores eficazes estão “centradas nos funcionários” e não “nas tarefas”; que os “dirigentes com melhores índices de desempenho concentram, primeiramente, sua atenção no aspecto humano dos seus subordinados, no empenho em construir grupos de trabalhos eficazes com objetivos desafiadores” (Lück et al., 1998, p. 39).
Assim, a gestão de uma escola deve vir de baixo para cima, porque a verdadeira mudança ocorre no “chão da escola”, onde estão os alunos, professores, zeladores, vigias, pais, merendeiras; em suma, todos os que compõem a comunidade escolar. Com essa nova visão de gestão, a comunidade escolar sentir-se-á capaz e livre para realizar as atividades, e os gestores espalharão um novo entusiasmo entre sua equipe, criando um ambiente de trabalho saudável para o serviço docente. Neste contexto, os professores listaram as características de um gestor eficaz: comprometido, incentivador, eficiente, respeitoso, empático, prestativo, proativo, sensato, sábio, decidido, participativo e integrador. Na visão dos docentes, o gestor escolar deve ter autocontrole, dinamismo, integração, cooperação, comunicação, sensibilidade, organização e altruísmo, e destacam, ainda, que precisa ter experiência de trabalhar com gestão de pessoas e gerenciar sua demanda em conformidade com a realidade de sua escola.
Diante do exposto, faz-se o seguinte questionamento: Quais providências estão sendo tomadas para reduzir a humilhação, o sofrimento e a desvalorização do trabalho docente no Maranhão?