opinião

Os sermões que o tempo não apaga

Luiz Gonzaga Martins Coelho

Na semana passada, adquiri um livro que há muito desejava e que, desde então, tem sido minha leitura de cabeceira nas noites de insônia. A obra reúne cinco sermões primorosos do Padre Antônio Vieira: Sermão da Primeira Dominga da Quaresma, Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as da Holanda, Sermão da Sexagésima, Sermão de Santo Antônio aos Peixes e Sermão de Nossa Senhora do Rosário com o Santíssimo Sacramento.

Nesses sermões, Vieira adverte fiéis e pregadores sobre temas que permanecem surpreendentemente atuais: ganância, corrupção, arrogância, soberba, inveja, luta contra as injustiças, tolerância e perdão. São reflexões que nos alertam para o verdadeiro sentido da vida. Todos são belíssimos; entretanto, escolhi para abordar nesta crônica um dos mais famosos e emblemáticos: o Sermão de Santo Antônio aos Peixes, proferido em 13 de junho de 1654, data em que se celebra Santo Antônio, um dos mais carismáticos santos da Igreja Católica.

Essa escolha tem um significado especial para mim. Além do forte conteúdo, esse sermão me remete à aula da saudade da minha turma de Direito (1990), brilhantemente proferida pelo nosso patrono, professor Nicolao Dino.

Naquela pregação, a voz de Vieira ecoava não apenas nos ouvidos dos ouvintes maranhenses, mas pelos corredores do tempo, atingindo em cheio a essência da natureza humana. Ao dirigir-se aos peixes, ele, na verdade, falava diretamente aos homens, usando uma alegoria: segundo ele, os peixes tinham duas grandes qualidades — ouviam e não falavam. Infelizmente, suas sábias palavras, mais de três séculos depois, continuam inquietantemente atuais.

Dizia ele: “Vós sois o sal da terra.” Explicava que o sal tem a função de impedir a corrupção da carne, assim como os pregadores deveriam impedir a corrupção dos homens. “Se o sal perde o sabor, de nada serve.” Se os pregadores perdem a coragem de denunciar o erro, a podridão se espalha.

O mais impressionante é perceber que esse sermão poderia ser repetido hoje sem que uma única palavra precisasse ser alterada. A corrupção contra a qual Vieira bradava continua rondando os corredores do poder e os corações humanos. Seus sermões tinham o vigor da verdade, mas também o peso da denúncia. Ele sabia que não bastava apontar o erro: era preciso incomodar.

Naquele sermão, Padre Vieira criticava a conduta dos senhores de engenho, que tentavam escravizar os indígenas. Ele acreditava que a missão da colonização portuguesa deveria ser catequizar e converter os povos nativos da América, e não explorá-los.

Lendo suas palavras hoje, pergunto-me: será que aprendemos a lição? O sal ainda está salgando ou já perdeu o sabor? Vieira convocava pregadores e fiéis a combaterem a corrupção, mas seu sermão serve também para governantes, cidadãos e todos aqueles que, diante do erro, escolhem o silêncio em vez da palavra, a omissão em vez da ação.

As páginas dos sermões de Vieira continuam vivas e, talvez mais do que nunca, precisemos revisitá-las. Se há algo que o tempo não apagou, foi a necessidade de escutar verdades incômodas. A história registra que, após pressão da elite local, avessa a suas posições, Vieira foi obrigado a deixar o Maranhão e retornar a Lisboa, em 1661. Afinal, a corrupção segue sendo um câncer que devasta o Brasil. Da escravidão ao mensalão, do petrolão às emendas secretas, seguimos convivendo com escândalos que se sucedem como se fossem parte de um ciclo inevitável. O povo brasileiro, tantas vezes vítima, também carrega o fardo de um sistema em que o “jeitinho” frequentemente ultrapassa os limites da ética.

Segundo o Índice de Percepção da Corrupção (IPC), elaborado pela Transparência Internacional, o nível de corrupção no Brasil piorou significativamente. A pontuação do país caiu de 43 para 34, registrando a pior nota desde 2012. Com isso, o Brasil passou da 96ª para a 107ª posição no ranking global.

Nesta semana, o Brasil celebrou os 40 anos de sua redemocratização, um marco histórico que reafirmou o compromisso do país com a democracia. Nessa transição, com a morte inesperada do presidente Tancredo Neves, um maranhense teve papel fundamental e se tornou um símbolo vivo da reconciliação nacional: José Sarney. Em reconhecimento à sua trajetória e contribuição para a estabilidade política do Brasil, ele foi merecidamente homenageado pelo Senado Federal e pela Câmara dos Deputados em Brasília. Outro brasileiro notável deve ser reverenciado, Ulisses Guimarães a quem in memorian homenageamos relembrando o cérebre discurso e sempre opostas palavras proferidas por ele em alto e bom som quando da sessão solene de proclamação da Constituição de 1988:

“A corrupção é o cupim da República. Não roubar, pôr na cadeia quem roubar, eis o primeiro mandamento da moral pública. Que isso se cumpra.”

Até quando teremos que conviver com essa chaga que tanto infelicita nossa nação?

Diga não à corrupção. Viva a Democracia!

  • Promotor de Justiça, titular da 45ª Promotoria de Justiça Especializada da Infância e Juventude do Termo Judiciário de São Luís/MA.

Ex-Presidente da Associação do Ministério Público do Estado do Maranhão – AMPEM.

Ex-Procurador Geral de Justiça e membro da Academia Maranhense de Ciências, Letras e Artes Militares – AMCLAM.