

O triste episódio do desaparecimento de crianças no município de Bacabal (MA) motivou-me a escrever sobre o tema. Quando uma criança some, não desaparece apenas uma pessoa: desaparece o sono de uma mãe, a esperança de um pai, o cotidiano de irmãos e avós; some também um pedaço da tranquilidade coletiva de toda uma comunidade que permanece sem respostas. O caso, por si só, já seria suficiente para provocar comoção e indignação. Torna-se, contudo, ainda mais grave quando inserido em um contexto nacional alarmante. Em audiência pública realizada na Comissão de Direitos Humanos do Senado, no dia 2 de março, discutiu-se a prevenção ao desaparecimento de pessoas. Dados oficiais indicam que, em 2024, o Brasil registrou cerca de 81 mil casos de crianças e adolescentes desaparecidos, número que representa aumento de 4,9% em relação ao ano anterior. Por trás das estatísticas, há lares dilacerados e vidas suspensas pela espera.
O desaparecimento de crianças e adolescentes é um fenômeno complexo e multidimensional: envolve vulnerabilidades sociais, fatores familiares, falhas institucionais e, não raramente, crimes. Por isso, impõe uma reflexão incômoda sobre o quanto falhamos — como Estado, sociedade e família — na proteção integral, que não pode ser apenas princípio constitucional, mas compromisso efetivo e permanente.
A dor do desaparecimento não atinge apenas a família: alcança a comunidade inteira. É sofrimento silencioso, prolongado, alimentado pela incerteza e pela ausência de respostas. E, nesses casos, uma verdade se impõe: tempo é vida. O Brasil dispõe de instrumentos normativos e de cadastros nacionais; o desafio é fazê-los funcionar com capilaridade, integração real entre órgãos de segurança e sistema de justiça, alimentação contínua de dados e protocolos de urgência que operem na prática.
As buscas pelos irmãos Ágatha Isabelly e Allan Michael, desaparecidos desde 4 de janeiro, no povoado São Sebastião dos Pretos, já ultrapassam 60 dias de angústia e incertezas. Como ex-Promotor de Justiça de Bacabal, ligado afetivamente àquela comunidade que tão bem me acolheu, manifesto minha solidariedade fraterna aos familiares, na esperança de que a verdade e o reencontro prevaleçam.
Que este episódio não seja apenas motivo de consternação, mas alerta: para prevenir novos desaparecimentos e, quando ocorrerem, assegurar resposta imediata, coordenada e eficaz. Proteger crianças é prioridade absoluta — e prioridade absoluta não combina com indiferença.
Por