
Inspirei-me a escrever esta crônica após assistir a um vídeo da atriz Cristiane Oliveira que circulava nas redes sociais, reacendendo em mim memórias de um tempo que parece distante, mas permanece vivo dentro de nós — aqueles que nascemos na década de 1960. Sou filho de um Brasil em que a vida tinha tempo. Tempo para uma boa prosa na porta de casa, quando as calçadas eram extensões afetivas de nossos lares; tempo para escrever cartas e esperar que o carteiro trouxesse notícias. Naquele mundo, o afeto tinha caligrafia, carimbo e selo.
Cresci assistindo à chegada da modernidade. Mas carrego comigo uma doce nostalgia da minha infância. Tive o privilégio de ser adolescente numa época em que se conquistava um amor com um bilhete dobrado no bolso, ou dançando uma música lenta — dessas que hoje a geração do “passa pra frente” talvez não tenha paciência de ouvir até o fim.
Pertenci a uma geração que sabia preencher o tempo com coisas simples. Jogávamos bola nas ruas de chão batido, empinávamos pipas coloridas, tomávamos banho de chuva e percorríamos de bicicleta as ruas da cidade. Brincávamos de “casamento oculto” na calçada da casa do senhor Osmar Borges, onde nossas primas e amigas ensaiavam papéis de um futuro que parecia tão distante. Vivíamos de imaginação, não de telas. E, talvez por isso, crescemos inteiros. Éramos jovens sem vícios digitais, livres de algoritmos. Aprendemos o valor do tempo da espera: para o amor, para o estudo, para a leitura, para a própria vida. Não nos satisfazíamos com uma sinopse — queríamos saborear o livro inteiro. Não tínhamos tudo, mas sabíamos ser felizes com o essencial. Nossa rotina tinha rituais: estudávamos, brincávamos, íamos à missa, almoçávamos em família, conversando longamente sobre o dia. E à noite, antes de dormir, ajoelhávamos ao lado da cama para rezar. Os pais não precisavam levantar a voz; um olhar era suficiente para moldar comportamento e ensinar disciplina. Era um tempo em que respeito se aprendia pelo exemplo — e pelo silêncio. Somos, hoje, a geração-ponte.
Carregamos metade do século XX e atravessamos, com coragem, a primeira metade do século XXI. Somos o elo entre dois mundos: tivemos que abandonar a máquina de escrever para abraçar o computador, trocar a régua de cálculo pela planilha eletrônica, substituir o rádio de pilha pelo celular multifuncional. Aprendemos, não sem esforço, a viver o melhor desses dois tempos: a serenidade do ontem e a velocidade do hoje.
A era digital trouxe benefícios inegáveis, mas não deveria nos fazer esquecer que, antes do toque na tela, existia o toque das mãos. Antes do “enviar”, existia o “encontrar”. Antes da pressa, havia tempo. E, talvez, seja disso que mais sentimos saudade: do tempo — esse velho mestre que a modernidade insiste em tentar dispensar. Concluo com uma reflexão do Padre Zezinho, que me acompanha desde a juventude: “Precisamos ser espectadores da vida, não apenas telespectadores de televisão, porque os verdadeiros atores de nossa história são os nossos pais.”
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