
O Carnaval é, por excelência, a festa da explosão coletiva. Já gostei muito de brincar, de me misturar à multidão do bairro Madre Deus e deixar que o ritmo conduzisse os passos. Hoje, confesso, prefiro o recolhimento. No feriado prolongado, escolhi descansar, ler, estar com minha família e rezar. Há um tempo para a folia momesca e outro para o silêncio.
Foi nesse intervalo que me detive a pensar sobre a recente e controvertida decisão que resultou no afastamento do ministro Dias Toffoli da relatoria do rumoroso e polêmico processo do chamado “Banco Master”. As muitas trapalhadas, idas e vindas desse caso são conhecidas. As soluções institucionais encontradas pelo Supremo Tribunal Federal dariam matéria suficiente para um artigo técnico, talvez até para um ensaio mais crítico sobre a engenharia processual e suas sutilezas, especialmente diante das construções jurídicas adotadas para não se reconhecerem hipóteses de impedimento ou suspeição.
Para completar, o ministro Alexandre de Moraes, em outra decisão heterodoxa, no âmbito do questionado inquérito das “fake news”, aberto em 2019, determinou que a Receita Federal verifique eventual quebra de sigilo de dados de integrantes da Suprema Corte e de familiares de magistrados nos últimos cinco anos. Mais uma vez agindo como investigador, julgador e vítima. Mas preferi não escrever hoje sobre isso, deixando-me conduzir pelo caminho da espiritualidade e da fé cristã.
Ao retornar da missa de Quarta-Feira de Cinzas, percebi que o verdadeiro contraste não estava nas decisões judiciais, mas no calendário. Enquanto a República debate seus impasses, a Igreja católica inicia a Quaresma. Na celebração, o sacerdote recordou que as cinzas são um gesto simbólico e profundo: “Lembra-te de que és pó e ao pó voltarás.” Não é ameaça; é convite. Convite à humildade, ao reconhecimento da nossa fragilidade, ao arrependimento sincero e à conversão. As cinzas não acusam; despertam. Não condenam; chamam à transformação. Vivemos dias de muito ruído. Processos rumorosos, disputas de narrativas e decisões que provocam paixões. O Brasil parece sempre à beira de um novo escândalo ou de uma nova polêmica. Ainda assim, a Quarta-Feira de Cinzas nos lembra que, acima das circunstâncias transitórias, das conveniências políticas e dos interesses pessoais, existe uma medida mais alta para a vida humana: a consciência.
A Quaresma é tempo de oração, não como peso, mas como libertação. Enquanto os holofotes se voltam para os grandes processos da República, talvez devêssemos também nos perguntar quais processos precisam ser julgados dentro de nós. Quais decisões exigem revisão. As cinzas sobre a testa são leves. Mas a mensagem é profunda e simbólica. Que possamos viver intensamente este período quaresmal. Que a prática da esmola, da oração e do jejum nos conduza a uma Páscoa não apenas celebrada, mas experimentada no íntimo. Porque, no fim das contas, a maior transformação não acontece nos tribunais, mas no coração humano.
E, como providencial complemento a essa reflexão quaresmal, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil lançou mais uma edição da Campanha da Fraternidade, sob o lema “Fraternidade e Moradia” e o tema “Ele veio morar entre nós”. A mensagem é clara e profundamente evangélica: estimular a Igreja e toda a sociedade a refletirem sobre a moradia como porta de entrada para a cidadania e condição essencial para a dignidade humana. Em meio aos ruídos da República, que não nos falte a consciência de que garantir um lar digno a cada família é também construir justiça, fraternidade e paz social. Segundo uma velha máxima, no Brasil o ano só começa depois do Carnaval. A folia terminou, os tamborins silenciaram e as ruas voltaram à rotina. Mas, ao que parece, ainda há muito a ser esclarecido na Praça dos Três Poderes, em Brasília.
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