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É hora de virar a página e pensar no interesse do Brasil

Luiz Gonzaga Martins Coelho - Promotor de Justiça, titular da 45ª Promotoria de Justiça Especializada da Infância e da Juventude do Termo Judiciário de São Luís-MA

À medida que nos aproximamos do encerramento deste ano, sinto que não poderia, na condição de cronista atento aos acontecimentos do país, deixar de registrar aquele que talvez tenha sido o tema mais comentado dos últimos doze meses: a condenação e prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro. Trata-se, sem dúvida, de um dos assuntos mais espinhosos da pauta nacional, dada a radicalização que ainda contamina o debate público, transformando divergências políticas em autênticos Fla-Flus ideológicos, em que muitos vestem camisas como torcedores fanáticos, não como cidadãos.

Logo após o anúncio da prisão, chamou atenção a declaração do presidente Lula afirmando que “o Brasil deu uma lição de democracia ao mundo ao prender um ex-presidente e quatro generais de quatro estrelas pela tentativa de golpe contra o Estado”. A afirmação tem seu peso. Não devemos, nem podemos, sentir satisfação pessoal com a prisão de quem quer que seja — isso seria apequenamento moral. Mas, como cidadão, reconheço o acerto da reflexão presidencial. Contudo, é impossível não recordar que, não muito tempo atrás, o Brasil já dera outra “lição ao mundo”: a prisão do atual mandatário da nação, também condenado, à época, por comandar o maior escândalo de corrupção da história nacional, episódio que levou à cadeia governadores, deputados, empresários, dirigentes partidários e ministros de Estado — a operação que ficou conhecida por Lava Jato.

É natural que surjam, apressadamente, os defensores de Lula afirmando que ele “foi inocentado”. Mas não corresponde aos fatos. Os processos foram anulados pelo STF em razão de vícios processuais atribuídos à Lava Jato. Anulação não é absolvição. Tampouco foi suficiente para convencer a maioria da população de que os graves desvios confessados por meio de acordos de leniência e as vultosas devoluções de recursos não existiram. Em um país profundamente ferido por décadas de corrupção sistêmica, não é simples apagar da memória coletiva aquilo que se viu, ouviu e registrou.

Assim como houve críticas à condução do juiz Sérgio Moro e do procurador Deltan Dallagnol, também há críticas — e muitas — à atuação do ministro Alexandre de Moraes na condução do processo da fake news e outros sob sua relatoria. É da democracia que se questionem autoridades, desde que com base nos fatos e dentro dos limites da República. O que importa, no fim, é que desta vez a punição alcance quem deve alcançar, e que sirva de exemplo a todos os agentes políticos: ninguém está acima da lei, independentemente da sigla partidária, da patente, da história pessoal ou da projeção pública.

A vida pública — especialmente o exercício dos mais altos cargos do Estado — exige renúncia, limites e permanente vigilância ética. Quanto maior a função, maior deve ser o dever de transparência, sob pena de se comprometer a confiança pública que legitima o exercício do poder.

Que este seja, portanto, um ponto de inflexão. Que o Brasil reencontre o seu norte — um caminho de progresso com justiça social, de instituições sólidas, de responsabilidade pública e de menos paixões cegas. Que possamos atravessar o próximo ano com menos radicalização e mais serenidade; menos ódio e mais diálogo; menos idolatrias e mais compromisso com a verdade, com o bem comum e com o futuro das próximas gerações.

A política pode até dividir palanques, mas não pode dividir famílias, amizades ou esperanças. Que o país compreenda, enfim, que nenhuma nação se ergue sobre os escombros do ódio, e que a democracia não se cumpre apenas com instituições funcionando — mas com cidadãos dispostos a ouvir, ponderar e reconstruir.

E porque é Natal — esse tempo universal de renascimento — deixo aqui um voto sincero: que a luz que guiou os pastores e iluminou os reis magos também ilumine nossos lares, nossas escolhas e nossos dias futuros. Que ela nos conduza a um 2026 de paz, saúde, esperança e prosperidade, com mais pontes e menos muros, mais empatia e menos feridas abertas.

Que o novo ano traga ao Brasil — e a cada um de nós — a serenidade que faltou, a justiça que se espera e a esperança que jamais pode morrer.

Que no ano novo possamos ultrapassar esse discurso de nós contra eles e assumir uma postura patriota e altruísta de todos pelo Brasil.

Feliz Natal e Próspero Ano Novo!