abismo financeiro

Correios: um rombo indecente

Luiz Gonzaga Martins Coelho - Promotor de Justiça e Ex-presidente da Associação do Ministério Público do Estado do Maranhão

Nas últimas semanas, tratei, neste espaço, de dois escândalos que indignaram o país: a vergonhosa fraude contra aposentados e pensionistas do INSS e o esquema que envolve o gigantesco Banco Master. Infelizmente, a torrente de problemas nacionais não dá trégua.

Enquanto ainda digerimos as revelações de cada operação policial, surge mais um alerta vermelho — desta vez relacionado ao destino dos Correios, uma das mais tradicionais e exemplares estatais brasileiras, hoje se encontra em meio a uma crise sem precedentes e à beira de um abismo financeiro.

Segundo reportagem exibida pelo Jornal Nacional desta segunda-feira (24/11), o rombo acumulado na empresa chega a impressionantes R$ 9 bilhões, configurando um quadro de verdadeira insolvência. O plano apresentado pelo governo prevê um agressivo programa de demissão voluntária que prevê o desligamento de dez mil funcionários, a venda de cerca de mil agências em todo o país, e um empréstimo de R$ 20 bilhões, na tentativa de cobrir o déficit e recolocar a companhia em posição de competitividade.

É doloroso constatar que os Correios — que já foram símbolo de confiança, eficiência, credibilidade e presença nacional — estejam agora reduzidos a uma estatal fragilizada, ineficiente, marcada por perdas sucessivas de mercado e por sucessivos episódios de ingerência política.

Ao lembrar o prestígio que essa empresa teve por décadas, entendemos a gravidade do momento presente: uma instituição essencial que está na antessala do colapso.

O cenário se agrava quando, na mesma edição do telejornal, em visita a Moçambique o presidente Lula voltou a defender que o BNDES reabra linhas de créditos para financiar obras de infraestrutura em países Africanos e da América Latina, em detrimento do consumo interno.

A contradição é evidente: enquanto o Estado projeta linhas de crédito para dinamizar a economia internacional, internamente uma de suas principais estatais agoniza, esperando soluções emergenciais para sobreviver, e setores essenciais como saúde, segurança pública, educação e estradas do Brasil sofrem com falta de investimento, sem falar que o Governo ignora o orçamento gastando bilhões fora da meta fiscal.

O problema dos Correios não é de hoje — e tampouco é apenas financeiro. Trata-se, sobretudo, de um problema de governança. Durante anos, a empresa sofreu com interferências políticas, escolhas equivocadas, loteamento de cargos e decisões administrativas orientadas mais por interesses partidários do que pela sustentabilidade institucional.

O resultado está à vista: perda de relevância, queda de credibilidade e um déficit financeiro que se agiganta.

Vale recordar que ano passado já em meio a uma crise financeira sem precedentes — quando a estatal suspendia férias, reduzia jornadas de trabalho e cortava salários de seus próprios servidores — os Correios desembolsaram inacreditáveis R$ 38 milhões em patrocínios de shows.

Um contrassenso gritante, que expõe a completa desconexão entre a administração da empresa e a realidade dramática vivida pelos trabalhadores e pela própria instituição.

Somente no primeiro semestre deste ano o prejuízo dos Correios chegaram a um rombo indecente de aproximadamente 4,3 bilhões. É urgente que o governo trate essa crise não como um incêndio momentâneo, mas como uma oportunidade de reconstrução.

Correios podem — e devem — ser uma empresa moderna, eficiente, competitiva e rentável. Para isso, é indispensável adotar: gestão profissionalizada, redução drástica da interferência política, revisão do modelo de negócios, investimento em tecnologia e logística, fortalecimento do compliance e da transparência.

O Brasil precisa compreender que empresas públicas só sobrevivem quando funcionam como empresas de verdade. Em um mercado cada vez mais dominado por gigantes da logística privada, não há espaço para amadorismo, aparelhamento ou improviso.

O rombo de hoje não é apenas um número bilionário. É o retrato de décadas de equívocos e é, sobretudo, um alerta: se não houver coragem para mudar, perderemos uma das instituições mais emblemáticas da nossa história recente, que é patrimônio e orgulho do povo brasileiro.