opinião

O feminicídio na obra de Roberto Bolano

Lourival Serejo- Desembargador

A abordagem sobre violência doméstica tem se tornado diária nos meios de comunicação. Tantas são as repetições e repetições desse mal, que comprovam a ideia dos extremos em que estamos vivendo.

Tomar conhecimento constante dessas práticas criminosas acaba levando a uma banalização, até porque – para usar um clichê policial – o “modus operandi” é sempre idêntico, em que estão presentes tiros, facadas, esganadura etc.

De vez em quando, causa maior impacto quando a notícia destaca a idade ou a condição social da vítima e do criminoso, como o recente feminicídio ocorrido na cidade de Riachão, em que um pastor deu mais de 30 facadas na ex-mulher, jogando por terra todo o seu credo que se esgana em pregar nas igrejas. Se fosse um padre, a repercussão seria idêntica.

Todas as instituições estão comprometidas com a erradicação da violência, fazendo a parte que lhes é possível. A novidade que trago nesta abordagem é sobre a pioneira contribuição da literatura para denunciar o feminicídio, precisamente feita por um romancista chileno.

Roberto Bolaño, escritor chileno, falecido aos 50 anos, inscreve-se hoje entre os melhores escritores latino-americanos da contemporaneidade. Nas suas obras reflete-se um intelectual comprometido com a realidade social, com a rebeldia acesa desde sua juventude, no tempo de Allende, preocupado com os destinos da América Latina.

A bibliografia de Bolaño compõe-se de poemas, contos, novelas e romances. Dentre os romances, destaca-se o monumental 2666, com 852 páginas, na edição brasileira da Companhia das Letras.

A obra começa a espantar pelo título: 2666. Seu conteúdo é dividido em cinco partes, com o entrelaçamento de narrativas distintas que se tocam em alguns pontos comuns.

É no quarto capítulo de 2666 – A parte dos crimes – que o autor denuncia, em 264 páginas, a sequência de feminicídios ocorridos em Ciudad Juarez, no México, dominada pelo tráfico violento com disputas entre facções. No romance, essa cidade aparece com o nome fictício de Santa Teresa. Não é só denunciar o que faz o autor, mas clamar e escancarar crimes que estavam tomando conta do cotidiano daquela região do país em que Bolaño optou por residir.

Impressionado com o assassinato de mais de 700 mulheres, entre 1993 e 1997, Bolaño usou do veículo da literatura para alertar a sociedade, o governo e os mecanismos da Justiça, sobre o que estava acontecendo. Contra os arquivamentos dos inquéritos, aponta a corrupção policial; contra a falta de punição, a burocracia da Justiça.

Para alcançar o objetivo de despertar a sensibilidade das autoridades, ele descreveu a história de várias vítimas de estupro, degola, agressões físicas, torturas, tiros, facadas – todas meninas jovens –, as quais, após serem assassinadas eram jogadas em terrenos baldios. Um detalhe que chama a atenção do leitor é a intenção memorialística do autor em revelar o nome das vítimas, contar suas histórias, tudo com o propósito de lutar contra a desumanização e frieza das estatísticas.

Da leitura desse capítulo, que antes fora publicado em separado como um conto, emergem as conclusões que levam a esse estado de coisas: pobreza, elemento migratório, cultura misógina, machismo, tráfico de drogas, exploração do trabalho de adolescentes e a corrupção dos cartéis. Como se vê, é um problema que vai além da esfera da polícia para revelar-se como algo estrutural.

Para uma amostra do seu modo de abordar o problema, transcrevo um breve trecho do livro 2666, em que o autor, depois de narrar o primeiro caso de assassinato de uma jovem, escreve: “Isso aconteceu em 1993. Em janeiro de 1993. A partir dessa morta começam a se contar os assassinatos de mulheres. Mas é provável que antes tenha havido outras. A primeira morta se chamava Esperanza Gómez Saldaña e tinha treze anos. Mas é provável que não tenha sido a primeira morta. Talvez por comodidade, por ser a primeira assassinada em 1993, ela encabece a lista. Mas com certeza em 1992 morreram outras. Outras que ficaram fora da lista ou que ninguém encontrou, enterradas em valas comuns no deserto ou suas cinzas espalhadas no meio da noite, quando nem aquele que semeia sabe onde, em que lugar se encontra.”

Atualmente, vários escritores seguem a linha de Bolaño, publicando romances em que são abordadas essas ações criminosas. Para lembrar, temos a escritora argentina Selva Almada, que publicou o romance Garotas mortas (Todavia, 2014) para denunciar e contar a história de três adolescentes mortas, na década de 1980, na cidade de Villa Elisa, província de Entre Rios. Inconformada com a banalidade com que esses três crimes foram tratados e esquecidos, atirou-se a investigar a vida dessas três garotas – Andrea, Maria Luísa e Sarita – e os desfechos policiais que sepultaram os inquéritos. Em um estilo leve e tocante, a autora relembra os nomes de dezenas de jovens mortas que foram divulgados pelos noticiários. Ao defrontar-se com essa realidade, ela constatou que nem sua casa é o lugar mais seguro para proteger-se dessas ações.

Esses romances citados confirmam a tendência desse gênero literário em refletir os dilemas da sociedade no momento em que são escritas e publicadas. É um compromisso do intelectual com seus leitores e com o público em geral.