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As Sebastianas do São Benedito dos Pretos

Lindoracy Santos - pesquisadora; doutora em Ciências da Educação

A governança Brasileira sempre impõe que quer fazer tudo para o povo, pelo bem do povo, no entanto as políticas públicas Brasileiras vão de encontro em muitos casos desta afirmação, caso concreto é o recorte da situação das mulheres quilombolas, que carecem de ações afirmativas de inserção em diversificados contextos, e que talvez nem precisamos termos uma densa e aprimorada formação política para compreendermos essas lacunas, pois estão, a olhos vistos; pensando nessa situação, enquanto profissional da educação, mulher preta e entusiasta da escrita, que nega-se a auto anular-se intelectualmente, estabilizar quando preciso, ou desestabilizar quando for o jeito, as tendências intelectuais contemporâneas, mas sempre com o olhar sobre os marcadores de carência da sociedade, com especialidade aos vulneráveis, desamparados pelo descaso governamental e humanitário, meu jeito mulher impõe colocar a minha voz, a serviço de quem necessita dos meus gritos, se for preciso irei fazer ecos.

Portanto, hoje abrindo esse dia 25 de julho, dia comemorativo internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, os fazeres, saberes e resistências das mulheres quilombolas do povoado São Sebastião dos Pretos, serão enfocados nesse artigo e discricionamos que é um povoado com 300 habitantes, localizado na zona rural de Bacabal-MA, que ficou conhecido nacionalmente pelo sumiço de duas crianças filhas da quilombola Clarice Cardoso.

As disputas narrativas têm a unanimidade de que as mulheres quilombolas exclusivamente padecem de diversos contextos que carecem de saúde, educação e valorização, mas alguém, em suas branquitudes, pode dizer que para mulheres brancas também carecem, mas são as pretas que foram escravizadas, destruídas em suas honras; as pretas que comiam os restos do boi e inventaram a panelada; os dejetos e sobras desprezados pelos senhores eram dados a elas e, assim, surgiu a feijoada.

Desde a ancestralidade é reservado tão pouco e, graças ao espírito aguerrido delas, as coisas são modificadas e nesse contexto aqui por práticas culinárias, tradições que o quilombo sustenta, e tem gente que sai da cidade para comer esses pratos do boi matado na roça, de uma carência, surge deliciosos regalos.

No povoado ainda tem as benzedeiras, as parteiras, as conselheiras guardiãs da sabedoria, as pretas velhas, algumas macumbeiras, mas que são a base da estrutura familiar, são detentoras de saberes que, ao longo dos anos, são cultivados, imprimindo a tradição cultural. Tem gente que não passa sem os conselhos delas.

A união e força da mulher também é apreciada quando, de forma espiritualizada, pelos desígnios da natureza, as crianças com quebranto recebem os mantras e, em um passe de mágica sobrenatural, os meninos novinhos recebem a luz e logo ficam espertos. Tem cinco a seis senhoras no povoado que cultivam esses hábitos e protagonizam a força da identidade cultural da mulher quilombola, com as rezas, chás e banhos.

As crenças religiosas ainda existem e permanecem, fazem garrafadas até para o câncer, tiram cachaça, mau-olhado, fazem homem apaixonar e chorar nos pés. São práticas tradicionais, religiosidades sincréticas de cura e proteção, e um arsenal e tanto que a modernidade ocidental não apagou e sustentam os processos de reelaboração cultural.

Em relação à carência configurada na área de saúde, o Maranhão é o estado com maior número de quilombos no Brasil e, no povoado São Sebastião, as mulheres ainda tratam da saúde com métodos provincianos, mas na comunidade tem o posto de saúde para os atendimentos básicos de saúde e bem-estar. Caso precisem de um atendimento mais cuidadoso, as mulheres são deslocadas à sede ou à capital, com transporte da prefeitura.

Em relação as idosas, as tratativas são mais delicadas e difíceis. Não existem serviços eficientes de saúde mental com profissionais qualificados para atendimento das demandas, nem ações itinerantes para mitigá-las. Ressalte-se que, em relação à assistência social, é triste ver que muitas quilombolas têm Alzheimer e que a família fica de pés e mãos atados aguardando a morte chegar, pois, potencialmente, o risco de demência é uma verdade incontestável, fatídica. O envelhecimento é triste, a situação é lamentável, e, as políticas são ineficazes.

É mais um dos momentos onde é comprovada a grandiosidade da situação, pois não se pode homogeneizar a saúde, se as especificidades da mulher quilombola idosa não é levada em consideração, sem contar que algumas também não estão em estado de demência, mas lá irão chegar porque não têm ações cognitivas, não tem um serviço de apoio psicossocial, elas enfrentam condições desafiadoras que tocam no emocional, a hipertensão e diabetes são frequentes, no mal aceitar-se na maturidade, na falta de empatia e amor e a falta de mecanismos potenciais para a saúde destas guerreiras vão sendo negligenciados, omitidos nas estatísticas.

É conveniente destacar que elas precisam de ações de beleza, dança, inclusão social, fortalecimento de vínculos, precisam de saúde sem racismo, que ocorre muitas vezes nos hospitais, demonstrando que a discriminação frequentemente se combina com outras desigualdades, afetando de forma mais intensa a vida das mulheres pretas.

Quando aportamos na educação das mulheres pretas do São Sebastião dos Pretos, ocorre um transporta de saberes. Apesar das mulheres não possuírem cursos superiores, muitas analfabetas e todas com saberes e fazeres para ensinar o reconhecimento da identidade étnica, a defesa do quilombo e o combate às desigualdades estruturais de gênero, raça e classe que afeta homens e mulheres.

A educação passa pelos conhecimentos transmitidos de geração em geração, as matriarcas vão tecendo os enredos, contando as histórias, abrindo os caminhos, transmitindo suas crenças e a grande maioria que não estudaram, configurando o cenário histórico de mulheres analfabetas ou semianalfabetas, sofrem com racismo, sofrem por serem pobres e vulneráveis, sofrem por serem mães solteiras, sofrem pela velhice, sofrem por não terem saúde, educação, moradia, infraestrutura, muitas coisas necessárias e inexistentes ou precárias, eis que iniciativas como Escola Nacional de Formação de Meninas e Mulheres Quilombolas ensinam sobre políticas públicas, direitos territoriais e a importância da autodeclaração, fortalecendo o protagonismo feminino na defesa das comunidades, mas até chegar esse momento, fazemos o resgate das mulheres analfabetas, sem direitos educacionais assegurados, sem intimidade com as letras, marginalizadas, excluídas por suas condutas intelectuais, a urbanização das metrópoles, para elas são letras da televisão, em pleno 2026, mulheres sem ou com práticas educativas escassas, que não saber discorrer sobre os sujeitos do processo de crescimento do país, ou sobre a inteligência artificial, dirá aspectos históricos, políticos ou sociais, são detentoras de ingenuidade, sem malícia técnica concedida pelos estudos.

Nesse momento emerge o EJA (Educação de Jovens e Adultos) com estratégias partindo do território em que vivem, usando a relevância do coco babaçu para alfabetizá-las e mostrar que BABAÇU começa em BÊ, e que afrodescendente começa com A. Os mestres mais qualificados vão distinguir o que é educação formal, não formal, informal, as mulheres pretas que se empolgam, que se dedicam conseguem aprender a ler, a escrever, a pensar, questionar, discutir, votar e ser votada. O processo de empoderamento catalisa e concretiza-se; a escola vai além dos muros. No povoado, a ressignificação dos saberes aconteceu em muitos desafios, mas aconteceu mesmo. Algumas vezes com o tal “Ivo viu a uva”, muitas aprenderam a soletrar, a escrever o nome, a ler e algumas vezes interpretar e um pouco de chutar o pau da barraca.

A educação popular que surge na margem da sociedade foi trabalhada, é trabalhada, e a relação pedagógica discorre sobre conhecimentos, experiências, direitos e deveres de cidadania e a educação ocorre como ato de conhecimento, de transformação social e politicidade da educação, há um claro diálogo entre educador e educando, revê processo ensino-aprendizagem.

Mesmo com conhecimentos mais científicos, não me permito romantizar a educação, porque ainda falta muito; no povoado não tem, de espécie nenhuma, infraestrutura pedagógica para a mulher quilombola crescer como deve. Será porque são negras, oprimidas em suas condições sociais, excluídas do processo monetário, discriminadas?

São tantas indagações e questionamentos que perpassam por respostas que vão além da alfabetização e letramento, na intersecção da educação quilombola, educação do campo e educação popular. Não custa cravar, tal qual Paulo Freire, que “num pensar dialético, ação e mundo, mundo e ação, estão intimamente solidários”.

As mulheres estão na roça, quebrando coco babaçu, torrando farinha, dividindo o bolso da família, dos filhos e netos, em tensionamentos que nos direcionam a pensar: por que políticas públicas não são envidadas como deveriam nesse território?? Porque um movimento precisam acontecer, é preciso um ecoar de vozes, um movimentar de mãos, união de corações para que a mulher quilombola possa ter a visibilidade precisa e necessária, valorizando experiências vividas na comunidade, nas conquistas dos seus territórios e nos avanços por uma situação que atenda a sonhos e projetos da família da mulher quilombola.

Por isso, nossa contribuição enquanto mulher preta é trazer o livro BASTIANAS como atenção e cuidado para os Maranhenses, dizendo com veemência um NÃO para as arbitrariedades coloniais, racistas, patriarcais e que essas mulheres aqui retratadas voem alto em seus reconhecimentos pessoal, político, profissional e de mulheres verdadeiras, fortes, altivas e guerreiras, onde asas, grades e vôos sejam sinônimos de resiliência, empoderamento e futuro de respeito!!!!

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Lindoracy Santos
Lindoracy Santos Colunista