
Nos últimos tempos a frase clássica do Mestre Yoda, personagem icônico da saga de ficção científica Star Wars, nunca esteve tão presente em meus pensamentos diários: “Fear is the path to the dark side. Fear leads to anger, anger leads to hate, hate leads to suffering” (O medo é o caminho para o lado sombrio. O medo leva à raiva, a raiva leva ao ódio, o ódio leva ao sofrimento).
Não obstante surgida de um filme de ficção científica, a “sabedoria de Yoda” descreve com bastante clareza, na minha opinião, quão perigosa é a técnica de persuasão baseada em ameaças, inseguranças existenciais, além da ansiedade em relação ao futuro para influenciar comportamentos e opiniões, muito associados a posicionamentos políticos. Trazendo para o nosso “mundo real”, aprendemos desde a antiguidade com o filósofo grego Aristóteles (384 a.C.–322 a.C.) em sua obra Retórica (especialmente no Livro II, Capítulo 5), que o medo é uma ferramenta essencial de persuasão e uma das principais paixões da alma que alteram o julgamento humano.
Mais adiante, durante a era das Grandes Navegações (séculos XV e XVI), o medo não era apenas uma reação natural ao desconhecido, mas uma poderosa ferramenta de controle social e político. A disseminação de histórias sobre perigos terríveis em certas rotas servia para afastar concorrentes numa época em que Portugal e Espanha tratavam seus mapas como verdadeiros segredos de Estado, assim como para manter desde a disciplina em embarcações insalubres, e até para justificar o domínio sobre novos territórios e povos.
A propósito, o século XX, mais exatamente na sua primeira metade, deixou uma das reflexões mais perturbadoras do pós-2ª grande guerra sobre o medo e o seu poder, materializada através da leitura do Nuremberg Diary, de Gustave Mark Gilbert (1911–1977), psicólogo militar norte-americano que desempenhou um papel único durante os Julgamentos de Nuremberg. No mencionado documento histórico é possível entender, por exemplo, a visão de Hermann Göring, um dos maiores líderes nazistas, sobre a importância, ou melhor, sobre a habilidade de um líder que consegue convencer seus governados com base numa retórica do medo, de que existe sempre uma ameaça iminente.
Segundo Gilbert, Göring deixou clara uma visão simples e profundamente inquietante de que o povo comum nunca deseja a guerra, contudo, o que move uma nação ao conflito, afirmou, é, por um lado, a massificação da crença de que a mesma está sendo atacada ou em vias de ser, e, por outro, “crucificação” de eventuais pacifistas como traidores. Esse diálogo entre Göring e Gilbert é considerado um dos momentos mais lúcidos e aterrorizantes da história da psicologia política. Com efeito, embora Gilbert defendesse que numa democracia o povo possui voz por meio de seus representantes, Göring aparentemente permanecia irredutível: para ele, com ou sem voz, o processo funciona do mesmo jeito — desde que o medo seja bem utilizado.
Passados mais de oitenta anos da 2ª grande guerra, em pleno século XXI, mais uma vez nos deparamos com os horrores dos conflitos armados em diferentes pontos do globo, e mais uma vez a retórica do medo é usada com muita força, sobretudo, em razão da velocidade de divulgação de notícias (verdadeiras ou falsas) nas redes sociais e do fácil acesso aos incontáveis recursos tecnológicos propiciados pela inteligência artificial, como estratégia persuasiva poderosa visando manipular emoções e comportamentos, gerando insegurança, desconfiança, a ponto de distanciarem amigos e até parentes. Nesse sentido, e, retornando ao início das ponderações do presente texto, relembrando a saga Star Wars, afinal, quem está no lado sombrio da “força” ? Aquelas nações que na verdade querem continuar praticando o neocolonialismo disfarçado de defesa de liberdades fundamentais ? Ou aquelas que em sua grande maioria apenas tentam se desenvolver de forma independente e sem intervenções externas ? Qual a narrativa que pode mais rapidamente convencer a considerável parcela de um povo ? A de que em nome da liberdade, da preservação de sua segurança, inclusive, territorial, e do seu modo de viver é preciso destruir/neutralizar outra nação ? Ou a de que determinadas nações possuem riquezas naturais e minerais, avançados parques industriais e tecnológicos, e que por essa razão precisam ser freadas, pois são uma ameaça a médio prazo, especialmente em termos financeiros ?
Oportuno destacar que não há aqui qualquer intenção de criticar nação A ou B, mas sim trazer à luz o medo não só como um sentimento que tem sido cada vez mais explorado por grupos de influência nas sociedades contemporâneas, mas também como um fator preponderante de decisões que culminaram em eventos de repercussão global ao longo da própria existência humana, e cujo estudo sobre o seu significado para as relações interpessoais foi iniciado ainda na Grécia antiga.
Tem-se, portanto, que embora o medo e a força de sua retórica tão bem destacada por Hermann Göring e explorada ao extremo nos tempos atuais, tenham servido como mecanismo de manipulação, distorcendo a linguagem, criando ameaças externas, e conduzindo multidões a escolhas que nunca fariam em tempos de serenidade, cabe unicamente ao povo a avaliação das palavras, dos discursos, porque os conflitos mundiais historicamente não começaram com disparos de armas, nasceram justamente do medo cuidadosamente moldado por líderes, que manipulam a realidade até a guerra parecer o mal inevitável.
Por fim, em que pese tantas oportunidades de aprendizagem com base nos vários eventos de repercussão mundial registrados pela humanidade, mais uma vez fica a sensação (dolorosa) de que vivemos tempos sombrios que só demonstram uma espécie de volta aos primórdios, onde a barbárie imperava como se nada ainda houvesse sido realmente aprendido.
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