

Em razão da elevada carga político-ideológica de que se reveste e a caracteriza, a anunciada imposição de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos, feita pelo Presidente americano Donald Trump, nesta semana, em carta dirigida ao Presidente brasileiro, não conseguiu ser percebida apenas como mais um ato de retrocesso promovido por ele no Comércio Internacional desde que chegou de volta à presidência do GRANDE IRMÃO, em janeiro deste ano.
De fato: após seu retorno à chefia do executivo americano, Trump vem marcando sua atuação no cenário global por uma política claramente “protecionista”, caracterizada pelo estabelecimento arbitrário de tarifas de importação sobre produtos de vários países do mundo exportados para os Estados Unidos. Essa sua atitude vai de encontro à prática e à ideologia econômicas americanas e com as quais este país se consolidou, após o final da Segunda Guerra Mundial, como a nação líder política e econômica mundial e o Dólar se tornou a moeda de trocas entre os países de todos os continentes e reserva de valor de cada um deles.
No presente caso, Trump parece ter buscado sua própria superação no espanto que vem causando ao mundo com decisões que se sucedem freneticamente desde janeiro, quando voltou a despachar no Salão Oval da Casa Branca, e que vêm afetando negativamente o funcionamento da economia global. Utilizando-se do heterodoxo método de comunicação das suas decisões via redes sociais, antes de empregar os formais canais diplomáticos e de Comércio Exterior, anunciou, na última quarta-feira, que havia decido taxar em 50% todos os produtos brasileiros vendidos ao seu país , adicionalmente aos 10 % que estabelecera sobre o aço, petróleo, aviões e outros produtos nacionais em 2 de abril de 2025.
Apesar de sua arbitrariedade e em desacordo com a regras formais e informais do Comércio Global, consolidadas após mais de 60 anos na existência da ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO COMÉRCIO, a medida de Trump se denuncia claramente motivada por um amontoado de questões que vão muito além do aspecto estritamente comercial. Logo na abertura de sua carta, emite rigorosa opinião negativa sobre o julgamento a que Bolsonaro está sendo submetido no STF em um processo voltado a investigar uma tentativa de golpe contra a eleição de Lula, em 2022, na qual ele, Bolsonaro, foi derrotado em sua pretensão de reeleição à presidência. Afirma, então, que a forma como o Brasil tem tratado o ex-Presidente “é uma vergonha internacional” e que “Esse julgamento não deveria estar ocorrendo. É uma Caça às Bruxas, que deve acabar IMEDIATAMENTE”. Reforçando o aspecto de clara agressão à soberania brasileira, Trump vai além, denunciando “ataques insidiosos do Brasil contra eleições livres” e “violação fundamental da liberdade de expressão dos americanos”. Neste último aspecto, está se referindo a contenciosos das big techs americanas na Corte Suprema brasileira, em razão de punições pecuniárias e operacionais que podem vir a sofrer, inclusive sua exclusão do mercado de mídia social brasileiro, em razão de suas atuações como canais de disseminação de “fake news” e de mensagens com elevados conteúdos de ódio e divisão fraticida entre brasileiros. Onde se encontram aqui razões para a cobrança de tarifas sobre produtos brasileiros vendidos aos americanos? Apenas na “cabeça doentia” de Donaldo Trump, segundo insuspeito juízo do Prêmio Nobel de Economia americano Paul Krugman, que também lembrou que as exportações brasileiras para os Estados Unidos representam apenas 2% do seu PIB.Com isto quis dizer que o gesto de Trump diante de tal realidade é “maldoso e megalomaníaco”.
Em outro ponto do seu “comunicado”, o presidente americano faz menção ao relacionamento entre os dois países no campo econômico. Ali, Trump afirma que os americanos concluíram que precisam se afastar da “longa e muito injusta relação comercial gerada pelas tarifas e barreiras tarifárias e não tarifárias do Brasil. Nosso relacionamento, infelizmente, está longe de ser recíproco”. Os dados do relacionamento comercial entre os dois países, contudo, apontam um déficit no montante de 410 bilhões de Dólares no lado brasileiro nos últimos quinze anos.
Quanto à diplomacia, não passou despercebido que a decisão do americano foi tomada quando ainda se desmontava o auditório onde no final da semana passada e início desta se realizou a reunião de cúpula do BRICS, no Rio de Janeiro. Embora o evento não tenha representado nenhum avanço significativo à sua pauta específica, este grupo de países representa um contraponto do Hemisfério Sul ao protagonismo e à hegemonia econômica dos grupos geopolíticos do Hemisfério Norte, sob a liderança dos Estados Unidos. Logo, faz sentido que Trump invista contra o Brasil, como alerta aos demais membros do BRICS.
Apesar das características “trumpistas” do gesto, a medida da nova tarifa americana sobre os produtos brasileiros vendidos aos Estados Unidos tem seus cálculos políticos, econômicos e diplomáticos específicos , o que sugere que até primeiro de Agosto muitas coisas podem ainda acontecer, antes da entrada em vigor da nova “tabela americana de tarifas” sobre as exportações mundiais para lá dirigidas , estando dentre elas no “radar” uma bem articulada reação brasileira, que traga a questão para os adequados fóruns de sua discussão, a exemplo da OMC. Até lá, parecerá que teremos uma eternidade de tempo para atravessar.