
Neste ano da graça de dois mil e vinte seis, muitas desgraças assolaram e permanecem assolando a Humanidade e as cidades. As guerras fazem parte desta estranha geografia, espalhadas pelos Continentes, numa repetição da história como tragédia e sem nenhuma farsa. O ano também é para celebrar o centenário do grandioso professor Milton Santos, de quem faço questão de lembrar sempre uma das melhores definições de lugar: “Lugar é o espaço do acontecer solidário”.
Com toda certeza, solidariedade talvez seja a palavra mais necessária no momento para integrar o dicionário de muitos dirigentes, autoridades e gestores que não sabem sequer quem foi o professor Milton Santos, e muito menos para que serve a prática deste termo, embora apareça com destaque no artigo 3º da Constituição Federal, como um dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil, logo no seu inciso I: “construir uma sociedade livre, justa e solidária”.
“Porque uma rua está para o bairro / Assim como uma artéria está para o coração / Nela pulsam os becos / E estacionam os cantos / Que servem de parlamento / Para as conversas de velhos / Que alimentam sua existência” (Do livro Paisagem feita de tempo, do poeta e compositor Joãozinho Ribeiro, publicado em 2006)
Cresci e me tornei adulto, morando na Rua Formosa (Afonso Pena), no velho bairro do Desterro, no coração do Centro Histórico de São Luís, reconhecido pela UNESCO, em 1997, como Patrimônio da Humanidade. Carrego comigo, na sacola da existência, com muito orgulho, tudo que uma rua pode proporcionar de produção criativa, de lazer e alegria para todas as gerações que sabem dialogar e conviver com as diferenças e as possibilidades de entendê-la como um espaço do acontecer solidário, por excelência, como nos ensinava o Doutor Milton Santos.
No momento, apesar de todos os silêncios e desculpas esfarrapadas das autoridades (in)competentes pelo abandono e desprezo do Centro Histórico de São Luís, talvez a Rua Godofredo Viana seja quem melhor represente este coração pulsante e cultural da nossa cidade; agora, infelizmente, objeto da ignorância e brutalidade das ditas autoridades e gestores de todas as esferas administrativas da Federação, que não conhecem a cidade, a cultura e seus habitantes, e os diferentes modos de se relacionarem com os lugares, que só tem merecimento de assim serem chamados, se preenchidos com as ações culturais do acontecer solidário, como queria o nosso eminente mestre geógrafo, já citado.
“Quando um sobrado desaba / Parece que a arte adoece / E a vida se torna ausente / Assim a cidade acontece / Costurada impunemente / Com a linha puída do presente” (Do livro Da gaveta da memória, do poeta e compositor Joãozinho Ribeiro, ainda inédito)
A rua Godofredo Viana sofreu interdição e proibição de funcionamento dos seus estabelecimentos comerciais na última sexta-feira, 15/05, por meio de uma ação conjunta dos órgãos competentes (???), incluindo os de segurança, talvez porque a cultura ainda seja uma coisa muito perigosa para as mentes de muitos gestores da nossa cidade, ainda que esta tenha de continuar fazendo por merecer o título de Patrimônio Cultural da Humanidade.
Acabei de saber, por meio de uma matéria veiculada numa emissora de TV local, que a proibição de funcionamento dos estabelecimentos localizados na Rua Godofredo Viana foi suspensa e que os bares e restaurantes autorizados a funcionar, desde que sem música. Lembrei de outros poetas e filósofos que me antecederam no combate aos profetas da tristeza e inimigos da alegria: “Sem música, a vida seria um erro”. Lembrando um deles, o poeta Gonzaguinha, prefiro a pureza da resposta das crianças: “Viver e não ter a vergonha de ser feliz”.
Para a Rua Godofredo Viana e todos os seus habitantes, visitantes, comerciantes, artistas, simpatizantes, frequentadores e defensores da arte, da vida e do direito à cultura e à felicidade, deixo esta mensagem:
“Minha esperança é urgente / Felicidade é pra agora / Que seja a meta do dia / Presente a toda hora / Que chegue com toda alegria / E nunca mais vá embora”