BASTIDORES

Chega de Saudade

A situação dos hospitais universitários é vexatória. Os cortes orçamentários ameaçam a sua sobrevivência. Saúde é essencial em qualquer política pública. Reduzir tudo ao financeiro é visão danosa, sobretudo, aos mais pobres e fatal para as pesquisas desenvolvidas na área. O Estado, na perspectiva do neoliberalismo, deve se ater a três setores: segurança, educação e […]

A situação dos hospitais universitários é vexatória. Os cortes orçamentários ameaçam a sua sobrevivência. Saúde é essencial em qualquer política pública. Reduzir tudo ao financeiro é visão danosa, sobretudo, aos mais pobres e fatal para as pesquisas desenvolvidas na área. O Estado, na perspectiva do neoliberalismo, deve se ater a três setores: segurança, educação e saúde. Os demais podem ser terceirizados ou privatizados.  A reforma da previdência atualmente vem sendo entoada como samba de uma nota só, falta-lhe anunciar quais os projetos que pretende desenvolver em cada um desses setores. 

Mas os veículos de comunicação travam discussão interminável sobre a legalidade dos diálogos entre Sérgio Moro e os procuradores da Lava Jato. Eles serão, a seu tempo, examinados pelo Judiciário, pois os processos a eles correspondentes se encontram em grau recursal. Convém que o Legislativo cumpra suas funções, discuta, emende, vote, as propostas do Executivo. Este, por sua feita, deve remeter as propostas, se as tiver, nas áreas consideradas prioritárias pelo projeto neoliberal de governança.

Não é admissível mobilizar-se a opinião pública, como se fora um Fla-Flu, em torno de heróis e vilões, como se não houvesse desafios urgentes a serem respondidos pelas autoridades públicas. Por que o país não cresce? Por que o número de desempregados aumenta? De nada adiantará apontar os erros do passado. Eles são do conhecimento público.  A sociedade brasileira reclama por projetos que alterem o status quo atual.  A exemplo dos hospitais públicos. Quais são as propostas?  Parcerias público-privadas que os tirem da indigência em que estão, com riscos para as vidas humanas. Se for, precisa-se saber em que termos. Saúde Pública não pode ser examinada por ótica exclusivamente comercial ou financeira.

Os Estados Unidos, sempre defenderam a quebra de barreiras comerciais, o livre-comércio, na conjuntura presente, mudaram a posição, se colocam a favor de medidas protetivas aos seus produtos, propondo a aplicação de sanções aos países divergentes. Não deixa de ser o império do nacionalismo econômico outrora condenado.No comércio e política internacionais não predominam princípios ideológicos, ao contrário, as alianças se fazem em função da convergência de interesses. O Brasil deve cuidar dos seus, como fazem os Estados Unidos e outros países ditos neoliberais. Montam-se as alianças em função dos objetivos nacionais.

Convém salientar, a tradição histórica, política e jurídica do Brasil é diferente dos Estados Unidos, vincula-se a herança econômica e jurídica da Europa Continental, ao passo que os norte-americanos integram o sistema common-law. As identidades nacionais devem ser respeitadas, sob pena de efeitos contrários aos desejados. Faz-se reflexão também em função de parcerias que se possam firmar na área da saúde pública. 

Um dos êxitos alcançados, sob o pálio da Constituição Federal de 1988, legatária de princípios e instituições das constituições da Europa Continental, é o Sistema Único de Saúde-SUS, bem-sucedido e representativo dos avanços sociais conquistados ao longo das três últimas décadas pelo povo brasileiro. Deve ser aperfeiçoado e aprimorado nos próximos anos.

Não apenas no campo dos Direitos Sociais, como disse Ruy Barbosa, na Conferência Internacional de Haia, em 1907: “Vi todas as nações do mundo reunidas, e aprendi a não me envergonhar da minha. Medindo de perto os grandes e os fortes, achei-os menores e mais fracos do que a Justiça e o Direito”. Também na literatura, na arquitetura, na música. Maior exemplo é a bossa nova, divulgada no mundo inteiro. Um dos seus fundadores, João Gilberto, ao lado de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, partiu para a eternidade sábado passado. Um dos seus emblemas é a canção Chega de Saudade. Para dizer, que saudade de um tempo em que pensávamos grande e almejávamos ser potência mundial. 

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