BASTIDORES

A Po­e­sia de Gon­çal­ves Di­as

Há quem cite Vinicius de Moraes como exemplo de poeta que viveu como tal. Mas Gonçalves Dias o precedeu. Toda a vida dedicada as musas foi o emancipador da poesia nacional.  De vida amorosa cheia de desencontros, marcou profundamente a alma brasileira. O romantismo gonçalvino ainda hoje impregna romances, folhetins e novelas. O seu caso de […]

Há quem cite Vinicius de Moraes como exemplo de poeta que viveu como tal. Mas Gonçalves Dias o precedeu. Toda a vida dedicada as musas foi o emancipador da poesia nacional.

 De vida amorosa cheia de desencontros, marcou profundamente a alma brasileira. O romantismo gonçalvino ainda hoje impregna romances, folhetins e novelas. O seu caso de amor com Ana Amélia, a reação da família, os preconceitos provincianos abalaram aquele cidadão do mundo. A serviço do governo brasileiro, do Imperador Pedro II, seu amigo pessoal, percorreu Portugal, Espanha, Itália, Áustria, Alemanha, resgatando documentos fundamentais para a preservação da identidade do país. Cumpriu missões científicas, incluindo a coleta de informações e métodos para a reforma da instrução pública do Brasil.

O filósofo, poeta e jurista Rossini Corrêa, no livro “Atenas Brasileira”, documenta, em apêndice, a vasta correspondência entre Gonçalves Dias e Pedro II, contendo valiosas informações sobre as missões que este lhe confiara, certo de que fazia investimento seguro para uma nação que começava a se formar, com a decidida contribuição do vate maranhense. O casamento malsucedido com Olímpia, filha do médico do Imperador, a morte prematura da filha Joana, de quem se despediu no porto de Havre, no adeus, a menina vira-se para o pai e diz: “au revoir, papa, là haut,” apontando o dedo para o céu. O poeta, tomou como pressagio afinal cumprido. Ao meio de tantas tragédias, executava as tarefas que lhe eram cometidas pelo governo imperial.

Junho, São Luís, a capital do Maranhão ilumina-se da luz dos arraiais, como era no passado, na juventude do autor de “Canção do Exilio “, a Festa dos Remédios, onde passeou com Ana Amélia, hoje, abrigando sua estátua, contemplando o mar, por fim, o seu túmulo.

A cultura do Maranhão e do Brasil muito devem a Antônio Gonçalves Dias, filho do português João Manuel Gonçalves Dias e da mestiça Vicência Mendes Ferreira, era a síntese da brasilidade, em suas veias corriam sangue português, índio e africano. Nasceu dia 10 de agosto de 1823, em Aldeias Altas, depois, Caxias. Desde menino aprendeu a amar a natureza e a com ela identificar-se. A exemplo destes versos: “A brisa que murmura na folhagem/ As aves que pipitam docemente/ (…). Estrelas, céus e mar, sol e terra, / Tudo existe contigo, e tu és tudo”.

Os versos dos “Cantos” são de enorme profundidade metafísica, capazes de extasiar o sábio Baruch Spinoza. Toda a poesia gonçalvina está impregnada de ecologismo avançado para a sua época. Tive oportunidade de a isso referir-me no I Congresso de Advocacia Ambiental, realizado em São Luís, em abril de 2006, na ocasião, evoquei o exemplo dos frades que no passado colonial, promoveram processo para destruir as formigas dilapidadoras dos víveres do convento, asseguraram às formigas o direito ao contraditório e ampla defesa. Fixando, aqui no Maranhão, o princípio de que todos os seres vivos são iguais perante a natureza, constante depois na obra de Gonçalves Dias.

Dia 28 de abril do ano passado, no auditório da Associação Comercial, encerramos com brilho, o Seminário dos cem anos da Faculdade de Direito do Maranhão. Ali, lançou-se o “Livro do Centenário”, contendo artigos e ensaios comemorativos do evento. O Livro, organizado por Rossini Corrêa e Oneildo Ferreira é dividido em estrofes da “Canção do Exilio”: Nosso céu tem mais estrelas/ Nossas várzeas têm mais flores/ Nossos bosques têm mais vida/ Nossa vida mais amores”. A Faculdade de Direito nasceu sob o signo das letras cultivadas pelo nosso poeta maior. Agora, os arraiais de São Luís se iluminam, a alma do poeta está presente. Ninguém amou e cantou tanto sua terra tanto quanto ele.

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