opinião

Viana a Jerusalém: quando a fé legitima o genocídio

Hesaú Rômulo é cientista político. Doutor em Ciência Política pela Universidade de Brasília e professor de Teoria Política na Universidade Federal do Norte do Tocantins

A distância entre Viana e Jerusalém é de aproximadamente 9.275km, em linha reta. Fui calcular isso hoje, logo após ouvir o pronunciamento da deputada Mical Damasceno (PSD). A personagem bíblica Mical, segundo o velho testamento, amava Davi (1 Samuel 18:20) e o dote que seu pai, Saul, cobrou pelo casamento foram cem prepúcios de filisteus. O romance entre os dois teve um fim trágico, e o que sobrou foi a estrela de seis pontas, que estampa a bandeira do estado ilegítimo que a deputada Mical defendeu na tribuna da Assembleia Legislativa no dia 30 de setembro de 2025.

O sionismo na sua versão maranhense celebra Netanyahu, critica o a diplomacia brasileira, condena a fala de Lula na ONU, e omite o genocídio perpetrado contra o povo palestino. O plenário do legislativo estadual silencia enquanto Mical, um dos mandatos mais coerentes da casa, reverbera um discurso lido com primazia para a sua base eleitoral. A deputada não faz ideia do que fala, mas sabe para quem fala. Suas palavras serão recortadas em um vídeo de dois minutos e meio e disparadas para os grupos de whatsapp das igrejas, onde ela foi bem votada.

Eu cresci num meio evangélico, rodeado de profecias sionistas, de ódio a Gaza, a Yasser Arafat e de preconceito étnico contra os árabes. Inúmeras imagens, sons e sílabas que eram proferidas em almoços, em cultos dominicais, em jantares de natal. O triunfo de Israel, entoado pelos parentes, estava camuflado em outros signos. Talvez por isso as palavras de Mical tenham mexido tanto comigo. Porque ecoa aquilo um léxico familiar que, penso eu, consegui subverter.

Mas qual a relação dos evangélicos com Israel? Em primeiro lugar a interpretação literal do Gênesis de que a terra prometida seria dada aos descendentes de Abraão e o “povo escolhido” era justamente o povo judeu.  Dentro do contexto monoteísta da época, os evangélicos compreendem que abraçar as vertentes de religiões abraâmicas (Jesus era judeu) é abraçar a profecia do pacto feito com Javé.

O segundo ponto dessa relação também fala de profecia e foi amplamente difundido nos anos 1970, com a obra The Late Great Planet Earth, de Hal Lindsey. Os evangélicos estadunidenses passam a acompanhar a geopolítica do Oriente Médio com mais atenção porque o pensamento escatológico afirma que a volta de Cristo (ou seja, o fim dos tempos), depende da criação do Estado de Israel, da reconquista de Jerusalém e da reconstrução do seu templo. Israel seria uma espécie de relógio para o fim do mundo.

O terceiro ponto é uma afirmação de identidade cultural que liga as tradições judaicas com o protestantismo norte-americano, que colonizou religiosamente o território nacional de forma organizada em meados do século XIX. É precisamente essa a conexão entre o Muro das Lamentações e o senhor de paletó que entra no ônibus espalhando a plenos pulmões que o fim está próximo. Estes dois polos operam de forma síncrona e sintetizam o pensamento da deputada Mical, mas também do pastor da periferia, do meu tio, do seu tio, de todos aqueles que dormiram nas aulas de História e Geografia no Ensino Médio, porque fazem uma interpretação literal do texto e confundem Israel do antigo testamento com Israel na modernidade, fruto de um acordo pós-segunda guerra.

São Luís, assim como diversas cidades do nordeste, tem uma influência Sírio-Libanesa fortíssima, mas a reação aos impropérios, ditos sem nenhum pudor, serão mínimas, porque o genocídio aos palestinos parece distante demais, quase que em outra galáxia. O eleitorado evangélico se consolidou como uma clivagem social importantíssima nos últimos vinte anos e há uma certa resistência de enfrentar o debate, pelo menos de onde eu enxergo.

A defesa irrestrita de Netanyahu deve vir acompanhada do endosso aos crimes de guerra que ele pratica contra os palestinos, crime contra a humanidade, realizados cotidianamente, à luz do dia. Ostentar a estrela de Davi na “bio do instagram” deve vir acompanhado da constatação de que as crianças palestinas não fazem parte do reino de Javé, não são dignas de amor e muito menos de respeito. A exaltação de Jerusalém como cidade sagrada precisa tripudiar dos órfãos de Gaza, das viúvas, das famílias que foram dizimadas por uma profecia interpretada de forma corrupta.

Netanyahu é o ovo, mas também a serpente, daquilo que os judeus sofreram no século passado. Repete a história, desta vez com todos os holofotes do Ocidente sobre si. A criação do estado de Israel em 1947 viria com um lembrete do que foi o holocausto, para que nunca mais se repetisse. Hoje se repete, e com uma parcela considerável de aplausos, daqueles que deveriam, por princípio cristão, condenar o que acontece na Palestina. O silêncio indigesto, a voz muda que não encontra a boca. A tragédia, mais uma, do nosso tempo.

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Hesaú Rômulo
Hesaú Rômulo Colunista