

Semana passada atravessei a Rua da Palma, no centro histórico e me deparei com o Largo do Desterro. Lembrei do romance de Josué Montello, de mesmo nome e publicado em 1981. O subtítulo do livro é “a vida eterna de Ramiro Taborda”. Montello conta a história de um personagem ludovicense que tem mais de cem anos de idade e que esbanja excelente saúde. Viver para sempre seria um bem ou um mal? Enterrar seus adversários seria uma dádiva, ao passo que enterrar seus entes queridos seria uma maldição? Para além da prosa riquíssima do autor, “Largo do Desterro” traz reflexões profundas sobre a finitude da existência humana e o apego do sentido de viver, justamente porque a morte está à espreita.
Cheguei em casa e fui procurar o livro na estante, pois lembrava de uma informação curiosa. Página 300. O doutor Pretextato fala ao arcebispo de São Luís: “Um assombro. Conversei com o Deputado José Sarney, que, embora muito moço, vive a mexer em livros velhos, e ele me assegurou que, aqui no Maranhão, no tempo dos franceses, eram comuns os velhos de cento e cinquenta, cento e sessenta anos. Quer isso dizer que há precedentes. Fiquei de queixo caído. Vossa Excelência Reverendíssima o que acha?”
Além de contemporâneos, Montello e Sarney foram grandes amigos. Ao longo da amizade dos dois, inúmeros gestos como esse se repetiram. Largo do Desterro está repleto de citações a personagens históricos de São Luís e do Maranhão e a menção ao ex-presidente, então um jovem deputado, era mais um desses afagos literários, que envaidecem a autoestima e a biografia dos escritores, neste caso, de um futuro imortal da Academia Brasileira de Letras. Pois bem, é desta imortalidade em potência que falava Josué Montello ao major Taborda e desta longevidade que hoje falam quando o assunto é o velho Sarney.
Dito isso, penso que José Sarney hoje virou o próprio Ramiro Taborda, encarnando em vida o personagem que um dia Josué Montello rascunhou nos anos 1980. Foi deputado, governador, presidente da república, senador, oligarca do Maranhão e hoje, no auge dos seus 95 anos, Sarney experimenta uma nova fase de sua carreira política: o de ser reverenciado, por políticos de direita, de esquerda, de centro, por nortistas e sulistas, pelos mais jovens. Sarney hoje enfrenta o fenômeno da anistia pela idade, qual seja, aquele em que o sujeito viveu o suficiente para tornar-se um patrimônio do folclore brasileiro, uma personagem contemporânea e ao mesmo tempo histórica da política nacional, aquele idoso simpático que parece ser impossível de desgostar. Pois bem, eu não consigo gostar do Sarney.
Acompanho os colegas cientistas políticos, nativos ou estrangeiros, rendendo homenagens ao Sarney e o elogiando pela lucidez, pela altivez, pela inteligência e tantos outros predicados justíssimos; adjetivos que estão à altura do seu lugar no panteão dos grandes atores políticos do Brasil no século XX, e também dos grandes escritores do país. Entendo a reverência, mas não consigo simpatizar com tudo isso que o envolve, e justifico o porquê.
Talvez não tenha avançado o suficiente na terapia, talvez eu tenha viajado o suficiente pelo interior do Maranhão (conheço 160 dos 217 municípios), talvez minha infância na periferia de São Luís tenha deixado seus vestígios, talvez a marca da pobreza na minha personalidade seja indelével, mas de qualquer forma, para qualquer observador mais atento, não há o que se comemorar quando se coloca a biografia de José Sarney em perspectiva.
Não faltam estudos em profundidade, análises comparadas, relatórios circunstanciados, documentos de organizações internacionais que tratam que a concentração de renda é uma das principais vilãs quando olhamos para as desigualdades presentes em qualquer sociedade. No caso maranhense, as desigualdades econômicas e sociais deveriam estar no cabeçalho de qualquer apresentação dos oligarcas que comandaram o Maranhão. Mas o texto não é sobre isso.
Meu avô, que exerceu uma influência muito grande (para o bem e para o mal) nos meus primeiros anos de vida, era comigo um sujeito extremamente dócil, amoroso, carinhoso. E só depois de adulto consegui compreender os atos dele, e todo o rastro de destruição que sua existência causou, nele próprio e em todos aqueles que conviveram com ele. Uma biografia é muito mais do que erros e acertos, e rememorando Jorge Luís Borges: a ambiguidade é uma riqueza. Eu entendo todos os que escolhem minimizar os erros do ex-presidente e valorizar os seus feitos, mas não consigo acompanha-los nisso.
Todos os (poucos) colegas que conheço que já tiveram oportunidade de conversar com Sarney rendem uma infinidade de elogios à sagacidade, brilhantismo e conhecimento que ele tem em absolutamente qualquer assunto. Mas eu não o conheço pessoalmente. Não conheci o homem, eu conheci apenas a obra. E o que Sarney fez com a minha geração é, se não imperdoável, no mínimo incontornável. Desde a lei de terras em 1969 até os índices de desenvolvimento humano do começo deste século, há uma participação direta e indireta do Sarney e não é qualquer publicação engraçada no Instagram que atenue o que aconteceu.
Conhecer o Maranhão, a zona rural, aldeias indígenas, comunidades quilombolas, histórias de resistência e de muita luta em favor do direito de existir nessa terra me colocaram num caminho sem volta. Talvez eu viva o suficiente para mudar de ideia sobre o Sarney, mas este dia com certeza não é hoje.