

Essa semana fui buscar uma encomenda na administração do condomínio e esbarrei na proteção de tela do celular de um funcionário que cuida das entregas: uma foto gerada por IA de Donald Trump, usando uma camisa branca com a legenda “deixem Bolsonaro em paz”. Na semana em que o STF julga os crimes cometidos no 8 de janeiro, há uma ressonância na sociedade em torno do debate da responsabilização dos atores que conspiraram contra as instituições democráticas do país.
Deixemos Bolsonaro em paz, mas antes ele precisa pagar pelos crimes que cometeu. O ex-presidente, que tanto falava que jogava dentro das “quatro linhas” da constituição, está sendo julgado pelo mesmo perímetro. Ao contrário do que ficam esgoelando os necromantes da extrema-direita, o julgamento de Bolsonaro e seus asseclas é pedagógico para a oposição, para o movimento conservador no país e para o restabelecimento de algum parâmetro razoável da disputa partidária que se esfacelou de 2018 para cá.
Precisamos sim, deixar Bolsonaro em paz. Encarcerado, fora da vida pública; assim como precisamos deixar em paz o bolsonarismo como ideologia política radical, que despreza as regras do jogo democrático. Ele precisa de tranquilidade para cuidar da sua saúde, para ter uma vida digna e ver seus netos crescerem enquanto seu legado na história do país vai diminuindo gradativamente.
Bolsonaro preso implica no maior esforço de disseminação dos direitos humanos já visto no país no século XXI, porque com ele vai cair o mantra “bandido bom é bandido morto” tantas vezes vociferado por aqueles que, de maneira perversa, incentivam uma política carcerária sanguinolenta.
Precisamos sim, Deixar Bolsonaro em paz. Nos preocupar com outras coisas. Sarar coletivamente as feridas deixadas pela pandemia, pelo descaso do governo de Jair com as vidas dos brasileiros, com a falta de vacina e com a sabotagem do SUS. Bolsonaro vai tirar a tornozeleira para colocar um belíssimo uniforme, mais um na sua carreira, só que dessa vez o mais adequado para o seu perfil. Vai ter café, almoço e janta. Lençóis limpos, vai ter direito a médico, dentista, psicólogo. Jair, aquele que não é coveiro, será um presidiário. Infinitas evidências de que a terra não é plana coisíssima nenhuma. A terra é redonda e as voltas que ela processa, sobre si mesma e sobre o sol, redime os que foram perseguidos e esmaga os que foram impiedosos.
Precisamos deixar Bolsonaro em paz. Para que ele leia “Memórias do Cárcere” de Graciliano Ramos, “A Casa dos Mortos” de Dostoievski, “O Conde de Monte Cristo” de Alexandre Dumas, “Estação Carandiru” de Drauzio Varella e tantos outros livros que certamente o farão refletir enormemente. Tempo ele terá, e de sobra.
A prisão de Bolsonaro significa um novo capítulo na distopia política do Brasil. Não resolverá todos os nossos problemas, mas com certeza nos trará algum alívio. Diferentemente do que acontece em outros lugares do mundo, atentar contra a democracia é intolerável, inadmissível, inconcebível.