opinião

O teatro onde o tempo respira

George Raposo - Administrador, advogado e jornalista

Por ocasião dos 208 anos do Teatro Arthur Azevedo

Sempre que caminho pela Rua do Sol e o Teatro Arthur Azevedo surge na esquina — imponente e discreto ao mesmo tempo — tenho a impressão de que ele respira. Mas não com o fôlego apressado das coisas novas. Ele respira devagar, com a calma de quem já entendeu que o segredo não é resistir, é permanecer.

Desde o dia 1º de junho de 1817 (até um pouco antes), o Teatro Arthur Azevedo está ali. E não é apenas um prédio antigo. Não é só arquitetura, nem só patrimônio, nem só cartão-postal. Ele é o lugar onde São Luís se senta, se cala e escuta. Onde a cidade esquece o barulho da pressa para escutar o silêncio das emoções.

Outro dia entrei. Entrei como quem volta pra casa. Sentei-me naquelas poltronas vermelhas, gastas nas bordas, como margens de livro muito folheado. O lustre seguia brilhando lá no alto com aquela elegância que só o tempo polido confere. As cortinas, fechadas, pareciam segurar a respiração à espera do mergulho.

Ali, no centro daquele silêncio cheio de histórias, me dei conta: o teatro não é palco apenas para quem atua. Ele é palco também para quem espera, para quem assiste, para quem se emociona em silêncio. Quantas vidas já passaram por ali? Quantos sapatos cruzaram aquele piso de madeira? Quantos aplausos estremeceram suas paredes — e quantos silêncios se acomodaram entre uma fala e outra, entre uma cena e outra, entre o riso e a lágrima?

O mais bonito do Teatro Arthur Azevedo talvez não esteja nos camarotes, nem nos vitrais, nem no teto pintado — embora tudo isso seja belo demais para ser ignorado. O mais bonito está no gesto invisível: o instante em que alguém, sentado no meio da plateia, esquece da própria vida e se entrega à ficção. Esse momento — breve, íntimo, sagrado — é o que dá sentido ao teatro. E à cidade.

Porque quando as luzes se apagam e o palco se acende, o tempo lá fora parece parar de correr. E ali dentro, ele apenas respira. Em outro compasso. Mais lento. Mais atento. Mais humano.

Naquela noite, ao sair e ver a Rua do Sol retomando sua pressa, olhei mais uma vez para a fachada do Teatro — com suas linhas clássicas e seu charme que não envelhece — e juro que ele piscou. Como quem diz: “até a próxima”.

E eu pensei: sim, Teatro. Sempre haverá uma próxima vez. Porque enquanto houver alguém disposto a se sentar, escutar e se emocionar, o Arthur Azevedo continuará ali: lembrando a São Luís — e a cada um de nós — que há lugares onde o tempo não passa. Só se transforma em arte.

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George Raposo
George Raposo Colunista