Pi­la­tos e nós

Quan­do a con­ve­ni­ên­cia ca­la a jus­ti­ça

Ednarg Fernandes Marques - Promotor de Justiça

A figura de Pilatos, lida à luz dos Evangelhos, continua perturbadoramente atual: ele regula a inocência de Jesus, mas não a sustenta até o fim; percebe a injustiça, mas cede à pressão, ao cálculo e ao medo da desordem. É justamente nessa fratura entre consciência e ação que sua postura se torna um espelho da vida contemporânea.

Nos relatos bíblicos, Pilatos aparece como alguém que interroga, hesita e, por fim, se omite ou cede. Em João (Jo 18,38), ele perguntou: “Que é a verdade?” e logo afirma que não encontra culpa em Jesus. Em Mateus (Mt 27,24), lava as mãos diante da multidão, como quem tenta transformar a responsabilidade moral em neutralidade formal. Em Marcos (Mc 15,15), ele solta Barrabás e entrega Jesus para satisfazer o povo.

Esse conjunto de gestos é muito mais do que uma cena histórica. Ele expõe a tentativa humana de consideração do bem, mas não bancá-lo; de ver o mal, mas não enfrentá-lo; de perceber a verdade, mas tratá-la como incômodo administrativo. Ele simplesmente lavou as mãos. Literalmente.

“Lavar as mãos” virou expressão universal porque descreve uma atitude moral muito precisa: transferir a culpa, preservar a própria imagem e escapar do peso da decisão. No Evangelho, Pilatos não envelhece como um juiz comprometido com a justiça, mas como alguém que tenta preservar a paz externa à custa da verdade interior.

A força simbólica desse gesto permanece porque ele não exige crueldade explícita; basta a omissão. E a omissão, quando há poder ou responsabilidade, também produz dano real. Pilatos não precisa odiar Jesus para condená-lo; basta preferir a conveniência à retidão.

Hoje agimos como Pilatos quando percebemos uma injustiça e escolhemos o silêncio para evitar conflitos. Na família, isso acontece quando se vê uma humilhação, uma manipulação ou uma violência emocional e se diz “não vou me meter”, mesmo sabendo que alguém ficará desprotegido.

No trabalho, acontece quando se tolera mentira, assédio, exploração ou desonestidade porque “não vale a pena criar problema”. Na esfera pública e na Justiça, acontece quando a decisão é guiada mais pela pressão, pela repercussão ou pela autopreservação do que pela busca do justo.

Esse padrão é especialmente grave porque a responsabilidade se dissolve em frases aparentemente prudentes: “não havia o que fazer”, “era o clima da empresa”, “era a ordem do sistema”, “era o sentimento da maioria”. Pilatos é exatamente isso: uma moral reduzida a gestão de riscos.

A atualidade de Pilatos pode ser pensada à luz de autores contemporâneos. Byung-Chul Han ajuda a pensar esse cenário ao descrever uma sociedade de desempenho, em que a lógica da eficiência, da positividade e da autoexploração vai corroendo a interioridade e a capacidade de resistência.

Nesse ambiente, o sujeito aprende a adaptar-se, entregar resultados e evitar fricções, mesmo quando isso o afasta da verdade e do bem comum. Lido por esse prisma, Pilatos não é apenas o homem que julgou Jesus; é a imagem de uma subjetividade que prefere o funcionamento do sistema à coragem de dizer “não” à injustiça. Han observou que a racionalidade contemporânea tende a absolutizar a sobrevivência e a eficácia, fazendo a pergunta pelo bem viver perder espaço. Isso é muito próximo de um mundo em que se preserva a própria posição, mas se sacrifica a verdade.

Zygmunt Bauman, por sua vez, ajuda a entender a fragilidade moral da nossa época ao falar da modernidade líquida: uma vida social marcada por mobilidade, instabilidade e pouca duração das formas sólidas de vínculo e responsabilidade. Em um mundo assim, compromissos pesam, posições custam caro e a tendência é escapar de tudo o que fixa demais a consciência.

A consequência é clara: quando tudo se torna fluido, também a responsabilidade pode ficar fluida. É mais fácil “administrar percepções” do que assumir uma posição ética. Bauman permite ver que o problema de Pilatos não é apenas individual; ele também é estrutural, porque sociedades instáveis ​​favorecem decisões apressadas, defensivas e oportunistas.

Hannah Arendt amplia ainda mais essa reflexão ao mostrar que o mal pode ser banal: não necessariamente monstruoso, mas rotineiro, burocrático e aceito como normalidade. Essa intuição ilumina Pilatos porque sua falha não precisa ser lida como sadismo; pode ser lida como uma resistência de pensar e responder com integridade diante do outro.

É por isso que a pergunta não é apenas “Quem foi Pilatos?”, mas “Em que momentos eu me torno Pilatos?”. Sempre que eu vejo o erro e me escondo atrás de protocolos, conveniências, posições ou medos, repito o mesmo movimento: reconheço a verdade, mas entrego o inocente à lógica do momento.

Na Semana Santa, essa cena ganha uma força especial porque ela nos obriga a observar a diferença entre julgamento e justiça. Julgar é rápido; ser justo exige escuta, custo e responsabilidade. Pilatos encarna o tribunal sem coragem moral, a autoridade sem plena ética, a consciência dividida entre o temor da multidão e a percepção do inocente. Talvez a pergunta mais dura que a narrativa nos faça seja esta: quantas vezes, para manter a paz aparente, deixamos o justo ser ferido? Quantas vezes preferimos não ver, não falar, não agir?

A Paixão de Cristo, lida assim, não é só memória religiosa; é também um exame da nossa própria capacidade de escolher entre a conveniência e a verdade.