O SILÊNCIO DAS ARQUIBANCADAS:

Um grito pelo futebol do Maranhão

Prof. Dr. Raimundo Castro - Professor Titular do Departamento de Matemática do Instituto Federal do Maranhão, Campus São Luís – Monte Castelo, Vice-Diretor da Sociedade Brasileira de Educação Matemática, Regional Maranhão - SBEM/MA. Membro da Rede Ibero-americana de Pesquisadores e Acadêmicos (REDE IPA). Membro Colaborador da Academia Maranhense de Ciências (AMC). Membro da Rede Latino-Americana de Etnomatemática (RELAET).

Há uma liturgia no futebol maranhense que não se aprende em manuais, nem se revela nos placares. Ele pulsa no barro das periferias, nos campos onde a grama cedeu lugar à poeira, nos pés descalços que insistem em sonhar. Não é mercadoria, não é vitrine: é expressão de um povo que aprendeu a driblar a negligência como quem improvisa poesia no meio da rua.

Esse futebol não precisa de legendas. Ele fala por si. Ele é Sampaio Corrêa, Moto Club, Maranhão Atlético — entidades que nasceram da urgência por voz, da fome por pertencimento, da coragem de transformar opressão em celebração coletiva. São mais que clubes: são memória tatuada na cidade, são monumentos invisíveis de uma cultura ignorada por aqueles que deveriam guardá-la.

A tragédia do futebol maranhense não é novidade, mas se aprofunda a cada temporada, acompanhada da mesma cadência com que o desprezo é acumulado. A Federação Maranhense de Futebol, uma entidade anacrônica e autorreferente, age como se administrar fosse apenas silenciar. Seu projeto é o vácuo. Sua marca, a omissão. Seus atos funcionam como túmulos para um futebol e um campeonato que, embora combalidos, ainda persistem teimosamente em existir. A Federação não falha por falta de capacidade técnica — falha por desprezo, por ausência de visão e por uma fidelidade cega à sua própria mediocridade.

Como se já não bastasse esse cenário desolador, surgem rumores de que a Federação Maranhense está sendo alvo de investigação pelo Ministério Público, o que lança uma sombra ainda mais densa sobre a já fragilizada estrutura do futebol local. Esse quadro não é um fenômeno isolado. No Brasil, as Federações de futebol, de maneira geral, funcionam como capitanias hereditárias — heranças mal administradas que perpetuam privilégios e interesses pessoais em detrimento do esporte. Essas federações, mantidas sob a tutela da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) – outra entidade que também precisa ser investigada com urgência –, se tornam redutos de um poder quase absoluto, onde a transparência é apenas um conceito distante.

Para aumentar ainda mais sua influência e garantir uma dominação que ultrapassa os limites do razoável, a CBF adotou uma prática que beira o absurdo: aumentou os “salários” dos presidentes das Federações. Com isso, em vez de promover melhorias no futebol, fortalece-se um sistema de interesses exclusivos, uma rede que se alimenta de um poder concentrado e imune ao questionamento. É um ciclo vicioso, onde o futebol, em sua essência, é sufocado pela falta de ética, pela corrupção e pela falta de comprometimento com a verdadeira evolução do esporte. O que se vê é um sistema que sobrevive graças à omissão e à blindagem de suas figuras centrais, enquanto o futebol, aos poucos, vai definindo sua própria morte.

Os dirigentes, por sua vez, parecem totalmente alheios à função que lhes cabe, imersos em uma rotina que nada tem a ver com a verdadeira essência da gestão esportiva. Encastelados em cargos que se perpetuam por conveniências pessoais e alianças espúrias, tratam os clubes como simples peças de um tabuleiro enferrujado, onde a estratégia parece se limitar a manter o jogo de poder. Eles são incapazes de compreender que gerenciar um clube de futebol, um espaço de paixão e sentimento coletivo, exige muito mais do que a mera transferência de planilhas e números frios. Falta-lhes, na essência, tudo o que é fundamental: compromisso, sensibilidade e um projeto de futuro.

O futebol é, para esses indivíduos, o último de seus interesses. Está distante, invisível, relegado a um plano secundário dentro de uma agenda onde a verdadeira paixão do esporte não tem lugar. E assim, nossos clubes, que um dia foram centelhas de identidade, orgulho e força comunitária, seguem à deriva. Sem planejamento, sem amparo, sem qualquer perspectiva de evolução. São organismos mortos, movendo-se pela inércia, enquanto o futuro se desvia cada vez mais, distante de um horizonte que, antes, parecia ser promissor. A falta de visão e dedicação dos dirigentes condena esses clubes a uma existência sem alma, sem brilho, à margem de sua própria história.

O patrimônio dos clubes é exaurido de maneira impiedosa, como se suas raízes históricas e seu valor simbólico fossem meros objetos descartáveis. Centros de Treinamento, que já não eram bons, são vendidos ou entregues sem que os torcedores sequer saibam para onde está indo o dinheiro que deveria ser investido na manutenção e no desenvolvimento do time. A transparência, que deveria ser um princípio básico da gestão, simplesmente não existe. Não há a mínima clareza sobre o destino dos recursos, deixando os torcedores na escuridão, à mercê de um processo de esvaziamento que, além de prejudicar o futebol, quebra a confiança e a conexão entre os clubes e suas bases. É um ciclo de desinformação e desprezo, onde o futebol se afunda ainda mais em um poço sem fundo, e o futuro, mais uma vez, se esvai como areia entre os dedos.

E os governantes — tanto municipais quanto estaduais — que deveriam ser os guardiões da cultura e da identidade local, assistem, em total silêncio, a esse cenário devastador. Ou pior: cooperam ativamente com o esquecimento e o desmonte do que deveria ser preservado. Como exemplo dessa indiferença, os governantes do Maranhão mobilizam recursos vultosos para ajudar a importar clubes de fora, em um movimento que reforça a ideia de que prestigiar o que é nosso, apoiar as raízes do futebol local, seria um erro estratégico. Ao invés de investir no fortalecimento da nossa própria história e nas nossas próprias equipes, o foco está em um espetáculo vazio, onde a busca por uma visibilidade superficial toma o lugar da construção de algo duradouro.

A prioridade, como sempre, é a foto fácil, o evento relâmpago, o marketing raso e efêmero. São ações que atraem holofotes momentâneos, mas não deixam legado. Não geram impacto real no desenvolvimento do esporte, na formação de atletas ou no fortalecimento da base de fãs. Nenhuma dessas iniciativas constrói raízes, nenhuma delas é capaz de transformar o futebol maranhense em um ponto de orgulho, em algo capaz de reverberar positivamente por gerações. E o que se perde, na ausência de visão e comprometimento, é a oportunidade de ensinar à juventude quem somos, de mostrar a ela a importância do futebol não apenas como espetáculo, mas como um reflexo da nossa cultura, das nossas lutas e da nossa identidade. O que os governantes estão oferecendo é um vazio, onde a verdadeira essência do esporte e da cultura maranhense desaparece cada vez mais.

Em meio a esse caos, uma parte considerável da imprensa local também optou pelo aplauso fácil, pela conivência vergonhosa. Quando clubes de fora desembarcam por aqui, monta-se um verdadeiro circo midiático: câmeras, entrevistas, manchetes festivas — uma cobertura que beira a adulação, quase subserviente. A cidade se enche de uma falsa grandiosidade, enquanto a imprensa, de maneira quase covarde, se rende ao brilho efêmero de forasteiros, como se eles fossem os salvadores de uma terra abandonada. E, mesmo quando se dignam a falar dos nossos clubes, há sempre um tom de distância, de desinteresse, como se estivessem relatando sobre uma cultura estrangeira, de um país distante e sem importância.

Poucos, raros, se reconhecem como parte do que estão narrando. Muitos sequer torcem por nossos times, não têm nenhuma conexão com a história que poderiam estar contando. Cumprem apenas o “protocolo”, a obrigação de garantir seus empregos, sem compromisso com o conteúdo, sem amor pelo que representam. A maioria parece mais interessada em ser espectadora do brilho alheio, da glória de outros, do que em se tornar a voz de uma história esquecida, negligenciada em casa. E, nesse processo, o que deveria ser uma imprensa que fomenta a reflexão, a conscientização e o orgulho local, se transforma em um megafone do esquecimento, alimentando ainda mais a alienação e o descompromisso com o que realmente importa: o futebol maranhense e sua verdadeira essência.

Não se trata de romantismo. Trata-se de justiça cultural. O futebol maranhense é patrimônio imaterial. É traço identitário. É, ou deveria ser, política pública. Mas a negligência das autoridades – e daqueles que, em tese, deveriam cuidar dele –, o empurra para o abismo da irrelevância. Os estádios se esvaziam, os jovens se afastam, as histórias se apagam – tudo sob o olhar frio de quem deveria defender, mas prefere posar ao lado de camisas que não nos representam.

É urgente salvar o futebol do Maranhão. E salvá-lo exige mais do que clamar nas redes sociais ou lembrar com saudade. Exige romper com a estrutura que hoje o asfixia. Exige enfrentar a inoperância da Federação. Exige expor o despreparo de dirigentes que pensam pequeno e fazem menor ainda. Exige cobrar com rigor a omissão de governos que tratam a cultura local como um apêndice descartável. E, sim, exige também que a imprensa reveja o papel que decidiu ocupar: se porta-voz da terra ou fã-clube do estrangeiro. Enquanto o torcedor for tratado como figurante em sua própria história, não haverá futuro possível. Enquanto os clubes forem deixados à míngua, não haverá campeonato que se sustente. Enquanto os gritos das arquibancadas forem abafados pelo silêncio das instituições, a esperança será apenas um sussurro.

Mas que se ouça este sussurro, antes que ele também se cale.

O Maranhão não pode continuar a perder para si mesmo.

Salvem o futebol do Maranhão – antes que não reste nem o eco.

Compartilhar