opinião

Elegia para o Príncipe das Trevas

Dr. Raimundo Castro - Professor Titular do Departamento de Matemática do Instituto Federal do Maranhão

Não é fácil escrever sobre a morte de alguém que, por tantas décadas, parecia imortal. Ozzy Osbourne não era apenas um homem: era uma anomalia cósmica, um grito distorcido vindo do fundo da garganta da modernidade, uma cicatriz no tempo do rock, um xamã dos riffs, um profeta maldito da distorção. E agora ele se foi.

Mas será mesmo que alguém como Ozzy pode morrer?

É difícil acreditar. Ele já morreu tantas vezes — na televisão, nos tabloides, nos palcos — que sua morte real parece menos definitiva do que uma nota dissonante pairando no fim de uma música do Black Sabbath. Ele era o próprio paradoxo: um cadáver ambulante que insistia em viver, um demônio caricato que invocava a liberdade, um totem de excessos que sempre reaparecia, zombando da morte com o mesmo sorriso desdentado com que zombava da moral.

A história de Ozzy não começa com sua fama. Começa nas ruínas de Birmingham, no pós-guerra, entre o carvão, o cinza e o concreto úmido. Nasce do ventre de uma Inglaterra operária, sufocada, onde o futuro era um corredor estreito e sem janelas. Ali, John Michael Osbourne escutou os primeiros ruídos do mundo — o ranger de ferros, o silêncio incômodo da miséria, o som abafado de um destino que parecia traçado para o chão da fábrica.

Mas ele não foi para a fábrica. Foi para o inferno — e voltou para cantar sobre ele.

Com Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward, fundou o Black Sabbath, uma banda que inventou mais do que o heavy metal: inventou uma nova forma de expressar a dor, a revolta e a sombra humana. Não eram apenas guitarras pesadas e letras soturnas — era uma forma de nomear aquilo que a sociedade vitoriana e puritana escondia debaixo do tapete: os vícios, os medos, a guerra, os pactos invisíveis com o mal.

Ozzy não era o melhor vocalista. Era o mais verdadeiro. Cantava como se estivesse sendo possuído. Gritava como quem precisava exorcizar séculos de repressão. Era um menino disléxico, com dificuldades escolares, que encontrou na música uma forma de existir. E como existiu. Reinventou-se tantas vezes, atravessou décadas, viciou-se, curou-se, voltou a se perder. Mordeu morcegos, beijou cobras, casou com Sharon e se tornou, ironicamente, uma espécie de pai de família na MTV. Um mártir do caos que virou ícone pop, sem jamais perder sua essência.

A morte de Ozzy não dói porque é inesperada. Dói porque, mesmo sendo esperada, ela nunca parecia possível. Sempre que sua saúde vacilava, quando os boatos surgiam, quando os médicos falavam em aposentadoria, algo nele renascia. Uma nova turnê, uma nova música, uma nova forma de dizer: “ainda não.”

Mas hoje é diferente. Hoje ele partiu de vez.

E o que nos resta?

Resta o silêncio depois do último acorde. Resta o eco da voz de alguém que, mesmo gritando, sempre falou das dores do mundo. Resta um legado que é mais do que discos: é uma forma de olhar o abismo e fazer dele palco. É uma ética da escuridão, uma estética da ruína, uma trilha sonora para quem nunca se encaixou, para quem sempre foi chamado de louco, de marginal, de exagerado.

Ozzy cantava para os excluídos. Era o bardo dos desajustados. O príncipe de um reino onde todos os pecados eram permitidos, menos o de fingir ser quem não se é. Foi, durante décadas, a própria encarnação da rebeldia — não aquela rebeldia adolescente e ensaiada, mas a rebeldia crua, suja, visceral. Aquela que brota do contato direto com a morte, com a dor, com o absurdo da existência.

Agora, o palco está vazio. A última nota se perdeu no ar. A cortina caiu.

Mas não, Ozzy não morreu.

Ele virou ritual. Virou ruído sagrado. Virou memória gravada no vinil do tempo. Ele estará em cada jovem que ousar dizer “não”, em cada riff tocado na garagem de um suburbano raivoso, em cada olhar perdido que encontra na música um abrigo. Ozzy virou eternidade sonora, liturgia profana, hino dos que se recusam a se calar.

A morte o alcançou, sim. Mas não o venceu.

Porque Ozzy nunca foi apenas carne. Foi grito. E gritos, quando ecoam fundo, nunca cessam.

E enquanto houver uma alma inquieta, uma mente em conflito, um coração partido — Ozzy viverá. Nos fones de ouvido, nas camisetas negras, nos gritos roucos das multidões. Porque o Príncipe das Trevas nos ensinou que a escuridão também é lugar de resistência. E que, mesmo nela, é possível dançar. Mesmo nela, é possível cantar. Mesmo nela, é possível viver.

Descanse em barulho, Ozzy.

E que o silêncio jamais nos separe de ti.

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