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Crô­ni­ca de um clu­be que apren­deu a san­grar em si­lên­cio

Dr. Raimundo Castro - Prof. Titular do Departamento de Matemática do Instituto Federal do Maranhão, Campus São Luís – Monte Castelo, Torcedor do Sampaio Corrêa Futebol Clube e um dos Representantes do Movimento O Sampaio é do Povo

Não é pouca coisa. É tempo suficiente para uma criança virar adulta, para uma cidade mudar de rosto, para um clube centenário perder a própria alma sem que o barulho da queda ecoe além dos muros que o cercam. O Sampaio Corrêa, nesses dezoito anos, não foi derrotado apenas em campo. Perder jogos faz parte do futebol. O que aconteceu foi outra coisa, mais funda, mais cruel: o clube foi sendo esvaziado por dentro, lentamente, como quem deixa uma casa aberta à noite e vai retirando, um a um, os móveis, os retratos, as memórias.

No começo, quase ninguém percebeu. Havia discursos prontos, promessas repetidas, a retórica do “é para o bem do clube”. Sempre é. Toda pilhagem vem embrulhada em palavras bonitas. O torcedor, fiel por natureza, acreditou. Afinal, quem ama um clube tende a confiar até quando a realidade já grita o contrário. Vieram os anos. Vieram as decisões estranhas. Vieram os silêncios. Vieram as derrotas que não doíam tanto quanto a sensação de abandono. O Sampaio continuava entrando em campo, mas parecia cada vez mais distante de quem o sustentou por gerações: o povo.

O clube foi se fechando. Portas se trancaram. O diálogo virou exceção. A crítica passou a ser tratada como traição. A torcida, antes voz legítima, virou incômodo. Não se governava mais para o Sampaio, mas apesar do Sampaio. E quando um clube começa a tratar sua torcida como problema, algo já apodreceu de vez. Então vieram os símbolos do esvaziamento final. Patrimônio vendido sem explicação convincente. Promessas de transparência que nunca se materializam.

Documentos que não aparecem. Respostas que não vêm. O clube, que deveria ser público em sua essência afetiva, passou a funcionar como propriedade privada de poucos — poucos que decidem, poucos que se explicam apenas para si mesmos. E quando a arquibancada resolveu falar, quando a faixa foi estendida, quando a palavra “basta” finalmente apareceu em pano e tinta, a resposta foi reveladora: censura. Retirada. Polícia. Ordem. Silêncio imposto. Ali, talvez, tudo tenha ficado claro de uma vez. Não se retirou apenas uma faixa. Tentou-se retirar o direito de existir enquanto torcedor crítico. Tentou-se apagar a memória, a indignação, o afeto ferido. Tentouse transformar amor em delito.

Mas há um erro que todo poder comete quando se fecha demais: acredita que pode controlar o sentimento. Não pode. A história mostra isso repetidas vezes. Quanto mais se tenta calar, mais alto o eco retorna. O Sampaio Corrêa sobrevive hoje não por causa de quem o dirige, mas apesar de quem o dirige. Sobrevive na fala indignada da arquibancada, no torcedor que ainda insiste, no grito que se recusa a virar sussurro. Sobrevive porque clube não é CNPJ, não é estatuto manipulado, não é ata escondida. Clube é vínculo. E vínculo não se vende.

Dezoito anos depois, o saldo não é apenas esportivo. É moral. É histórico. É simbólico. Esta será lembrada como a era em que um clube centenário foi administrado como se fosse descartável. Como se não tivesse passado. Como se não tivesse dono — quando sempre teve: o povo. Talvez ainda haja tempo. Talvez não para os que hoje mandam, mas para o clube. Porque clubes, quando são de verdade, sobrevivem aos seus piores dirigentes. E a história, essa não falha: ela anota tudo. O silêncio imposto, a faixa arrancada, o patrimônio vendido, a torcida ignorada. E um dia, quando as páginas forem relidas, ficará registrado que o Sampaio Corrêa não morreu. Tentaram matá-lo. Mas ele resistiu — na arquibancada, na memória, na voz de quem nunca aceitou amar em silêncio.

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