Julho das Pretas:

Existir é Luta, Mas Também é Futuro

Cricielle Muniz - Diretora-Geral do IEMA

Cresci na Ilhinha, periferia de São Luís. Ali, ser mulher preta significava aprender cedo que o mundo tenta nos empurrar para fora. Lembro das ausências, dos olhares tortos no caminho da escola, das barreiras invisíveis que insistiam em avisar: “Esse lugar não é para você”. Mas também cresci cercada de força. Da minha mãe, das minhas irmãs, das vizinhas, das professoras que acreditavam em nós quando o mundo queria calar nossas vozes. Essa vivência me forjou e me acompanha em cada passo.
Por isso, hoje, como diretora-geral do IEMA, carrego essa história comigo. É uma missão que o governador Carlos Brandão confiou a mim em 2023, tornando-me a primeira mulher negra a ocupar este cargo na história do Instituto, à frente da instituição há mais de dois anos.

Nesse lugar, sei que minha trajetória é mais que pessoal: ela é coletiva e atravessada por muitas outras mulheres. No IEMA, transformamos a educação em uma ferramenta concreta para o enfrentamento das desigualdades. Promovemos uma formação que acolhe, empodera e devolve às nossas meninas pretas o direito de ocupar, com dignidade, o que sempre tentaram negar a elas. Fazemos isso com o compromisso diário de uma rede pública que acredita que resistir também é ensinar.


Assim, Julho é mês de memória e de afirmação. É quando lembramos que a nossa luta tem nome, rosto e história. O enfrentamento ao racismo não começou com a gente, mas nos atravessa todos os dias. Como Sueli Carneiro nos ensinou, não existe democracia sem a centralidade da questão racial. Cada passo que damos é um ato de afirmação.


E, nesse caminho, é impossível falar do Julho das Pretas sem evocar a força de Lélia Gonzalez, que fez da interseção entre raça, classe e gênero uma bandeira de existência, afirmando que a mulher negra é a “quilombola do século XX”. A realidade que ela descreveu, infelizmente, ainda reverbera em nossos dias. Por isso, também celebramos as nossas, aqui do Maranhão.


Penso em Maria Firmina dos Reis, que, ainda no século XIX, ousou escrever contra a escravidão e afirmar a liberdade com a força da palavra, mostrando que a literatura também é um grito de libertação. E em Carolina Maria de Jesus, que escreveu com dor e dignidade o que é ser mulher preta, periférica e invisibilizada, eternizando em seus diários a realidade dura e a beleza de sua gente. São vozes que nos guiam, junto de tantas outras mulheres que, em todo o país, seguem alimentando suas famílias, resistindo, estudando e sonhando com um Brasil mais justo, mesmo sem estarem nos espaços de decisão.


No entanto, mesmo sendo 28% da população brasileira, continuamos na linha de frente da fome, da violência e da informalidade. Ganhamos menos, sofremos mais e ocupamos menos os espaços de poder, mesmo sendo maioria. Segundo o IPEA, mulheres negras recebem, em média, 44% do salário de um homem branco. Mais de 60% das mulheres assassinadas no Brasil são negras. A conta é pesada, histórica e precisa ser enfrentada.


É essa realidade que impulsiona o fortalecimento de políticas públicas como o programa Mulheres Mil, voltado para mulheres em situação de vulnerabilidade social. Muitas delas são negras, mães solo, chefes de família, afastadas por décadas da qualificação e da autonomia econômica. Por isso, sua retomada e expansão são fruto do compromisso do Governo Federal, com o presidente Lula colocando essas mulheres no centro da agenda pública. Aqui no Maranhão, temos contado com o apoio decisivo do governador Carlos Brandão para garantir que essa política chegue aonde mais precisa: nas comunidades, nas periferias, na vida concreta das pessoas.


Nada disso se enfrenta sem ação concreta. E, no IEMA, sob a gestão do governador Carlos Brandão, isso começa pela construção de uma política educacional comprometida com escuta, identidade e reparação. Sob a liderança de Maitê Sousa, a Coordenação de Diversidade e Relações Étnico-Raciais da nossa rede tem estruturado ações de combate ao racismo, à intolerância religiosa e à LGBTfobia, fortalecendo gestores e atuando como canal direto de acolhimento e encaminhamento de denúncias.
Foi essa coordenação que, por exemplo, lançou a primeira cartilha de nome social da rede, um marco no respeito à identidade de pessoas trans e travestis dentro da escola. Além disso, em um ano tão importante para a afirmação da nossa identidade, realizamos, em 2024, a 1ª Feira Cultural e Étnico-Racial do IEMA, a FECULEMA. Esse foi um espaço potente de afirmação para as juventudes, especialmente para nossas meninas e mulheres pretas. Ali, elas e todos os nossos estudantes mostraram, com ciência e cultura, que seus corpos pensam, criam e transformam. Celebraram a riqueza de suas origens e a força da diversidade, reafirmando que somos protagonistas de nossas próprias histórias.


No IEMA, educar também é resistir. Cada sala de aula, cada experimento, cada feira, cada encontro é uma chance de escrever novas narrativas. E isso porque a educação que queremos não é neutra. Ela tem cor, tem território, tem lado. Ela tem a nossa cara.


Por isso, olho para trás com a memória das ausências, mas sigo com os olhos no futuro. Um futuro em que ser mulher preta não seja só resistência, mas plena liberdade e alegria. Um futuro em que nossas meninas não peçam mais licença para existir. Elas simplesmente chegarão, tomarão seus lugares de direito e ocuparão tudo com a força e a beleza de quem sabe que o mundo é delas. O futuro é preto. O futuro é feminino. O futuro é agora.