

No dia 21 de março, quando o mundo marca o Dia Internacional contra a Discriminação Racial, eu não consigo olhar para essa data apenas como um símbolo. Para mim, ela é memória, é trajetória e também é compromisso. É um convite à reflexão, mas, sobretudo, um chamado à ação.
Sou uma mulher preta, filha da periferia de São Luís, e foi muito cedo que entendi que o estudo não seria apenas uma escolha em minha vida. Seria caminho. Não um caminho fácil, nem linear, mas o único que me permitiria sonhar para além das limitações que historicamente nos foram impostas.
Cresci ouvindo uma frase da minha mãe que nunca me abandonou, que o estudo era o único caminho. Eu o escolhi. Não porque fosse simples, mas porque era necessário. Era o instrumento que eu tinha para romper barreiras, para ocupar espaços e, principalmente, para existir com dignidade em um mundo que tantas vezes tenta nos negar.
Estudar, para mim, nunca foi apenas aprender conteúdos. Foi resistir, permanecer. Foi acreditar, todos os dias, que aquele lugar também era meu, mesmo quando tudo ao redor dizia o contrário. Nada me foi dado. Permanecer foi, talvez, o maior desafio. Atravessar espaços que não foram pensados para pessoas como eu exigiu coragem, insistência e, acima de tudo, esperança. Mas foi essa travessia que me trouxe até aqui.
Hoje, como a primeira diretora-geral negra do Instituto Estadual de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão, carrego mais do que uma função. Carrego uma história coletiva. Carrego os passos de quem veio antes de mim e a responsabilidade de abrir caminhos para quem ainda virá.
Porque eu sei o que significa não se ver. Sei o que significa crescer sem referências, sem espelhos, sem acreditar que determinados lugares também nos pertencem de fato. E é por isso que cada decisão que tomamos no IEMA carrega um propósito maior: garantir que outras meninas e meninos negros possam sonhar sem pedir permissão.
Falar de educação antirracista, portanto, não é falar de uma pauta isolada. É falar de estrutura. É falar de um país que ainda convive com desigualdades profundas e com um racismo que se manifesta de forma silenciosa, mas persistente, nos acessos, nas oportunidades e nas ausências. A escola, nesse contexto, não pode ser neutra. Ela precisa ser intencional. Precisa reconhecer essas desigualdades e atuar para transformá-las. Precisa ser espaço de pertencimento, de identidade e de construção de novos horizontes.
No IEMA, essa compreensão tem orientado nossas ações de forma concreta. Um dos marcos mais importantes foi a criação da Coordenação de Diversidade e Relações Étnico-Raciais, sob a liderança da cientista social Maitê Sousa. Mais do que um setor, essa coordenação representa uma mudança de paradigma. Representa a decisão de tratar a equidade racial como eixo estruturante da nossa política educacional.
A partir dela, passamos a organizar práticas, formar professores, orientar currículos e, principalmente, garantir que o debate racial esteja presente de forma contínua no cotidiano escolar. Porque não basta abrir portas. É preciso garantir que os estudantes permaneçam, se reconheçam e se sintam parte desse ambiente.
Foi nesse mesmo sentido que ampliamos os Núcleos Internos de Educação Antirracista e em Direitos Humanos (NEADH) para todos os nossos Institutos Plenos. Esses núcleos são espaços vivos dentro das escolas. Espaços de escuta, de diálogo e de formação crítica. Ali, os estudantes não apenas aprendem sobre história e cultura afro-brasileira e indígena, mas, sobretudo, constroem consciência. Eles se reconhecem como sujeitos de direitos e compreendem o mundo e o seu lugar nele de forma mais crítica e mais potente.
Essa transformação também se expressa na criação da Feira Cultural e Étnico-Racial do IEMA, a FECULEMA. Um dos momentos mais potentes da nossa rede. Um espaço onde o conhecimento ganha novas formas, novos sentidos e novas vozes. Na FECULEMA, os estudantes apresentam projetos que dialogam com saberes ancestrais, culturais e tecnológicos. É ali que vemos, na prática, que não existe contradição entre tradição e inovação. Existe continuidade. Existe diálogo. Existe potência.
São projetos que resgatam histórias, valorizam territórios, reconhecem identidades e, ao mesmo tempo, apontam soluções para o presente e para o futuro. É a juventude mostrando que é possível construir um novo modelo de desenvolvimento, mais justo, mais diverso e mais conectado com suas raízes.
Esse conjunto de ações não ocorre de forma isolada. Ele é resultado de uma decisão política mais ampla, conduzida pelo Governador Carlos Brandão, à frente do Governo do Maranhão, que tem colocado a educação como prioridade estratégica para o desenvolvimento do estado. Sob sua liderança, a educação profissional e tecnológica ganhou escala, investimento e centralidade. A expansão da rede IEMA, a interiorização do ensino técnico e o fortalecimento de políticas voltadas à equidade demonstram que há um compromisso concreto com a transformação social por meio da educação.
Esse movimento também conta com a atuação do secretário Orleans Brandão, um parceiro fundamental nesse processo de fortalecimento da educação no Maranhão. Sua ação tem sido marcada pelo diálogo constante com os municípios, pela escuta ativa das demandas locais e por um olhar sensível para a educação como eixo central do desenvolvimento.
Mais do que um articulador institucional, Orleans Brandão tem se consolidado como alguém que compreende a educação como ferramenta de transformação social. Sua parceria com o IEMA e com as políticas educacionais do estado tem sido decisiva para ampliar o alcance das ações, garantir que elas cheguem de forma efetiva aos territórios e fortalecer a integração entre governo e municípios.
Esse alinhamento também dialoga com o projeto nacional liderado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tem recolocado a educação e a equidade racial no centro da agenda pública. Ainda em seu primeiro mandato, Lula sancionou a Lei 10.639/03, que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana nas escolas, um marco no enfrentamento ao racismo estrutural por meio da educação.
Hoje, esse compromisso segue fortalecido com ações voltadas à formação de professores, apoio às comunidades quilombolas e valorização dos saberes tradicionais. Iniciativas como a Escola Nacional Nego Bispo reforçam esse caminho, ampliando o alcance das políticas e contribuindo para uma educação mais inclusiva e conectada com a realidade do povo brasileiro.
Porque enfrentar o racismo exige mais do que discurso: exige política pública, investimento e decisão. E é com essa compreensão que seguimos avançando. No próximo dia 27 de março, o Maranhão viverá um momento histórico com a inauguração do primeiro IEMA Quilombola, no povoado Oitiua, em Alcântara. Uma conquista que representa não apenas a expansão da rede, mas a consolidação de um novo modelo de educação.
Essa escola nasce do diálogo. Antes mesmo de sua construção, ouvimos a comunidade, realizamos rodas de conversa, audiências públicas e momentos de escuta ativa. Perguntamos, aprendemos, compreendemos.
Os cursos ofertados foram definidos a partir dessa escuta. Eles dialogam com as vocações do território, com as necessidades da comunidade e com as perspectivas de futuro daquele povo. Construir um IEMA Quilombola nesse território é reconhecer que a educação precisa fazer sentido. Precisa respeitar identidades, valorizar saberes e fortalecer pertencimentos. É afirmar que desenvolvimento não pode significar apagamento; ao contrário, deve representar valorização e reconhecimento.
Dentro de tudo isso, a representatividade segue sendo um elemento central. No IEMA, temos o compromisso de construir um corpo docente plural, diverso, que permita aos nossos estudantes se identificarem. Porque quando um jovem negro se vê, algo muda. O horizonte se amplia. O sonho ganha forma.
E o sonho importa. Seguiremos firmes nesse caminho. Trabalhando todos os dias para garantir que cada estudante que passe pelo IEMA possa se reconhecer, se fortalecer e acreditar em seu próprio potencial. Porque educação antirracista não é apenas sobre o presente. É sobre o futuro. Um futuro onde nenhuma menina e nenhum menino precise duvidar do seu lugar no mundo e onde sonhar não seja um privilégio, mas um direito.