

É curioso observar, como o clamor das redes sociais assume contornos quase míticos. Há uma ânsia coletiva pela ressurreição simbólica de Odete, como se o público se recusasse a aceitar a finitude da personagem ou, talvez, da própria narrativa que ela representa.
Não seria absurdo supor que Odete, em sua astúcia quase trágica, tenha forjado a própria morte e se retirado do palco apenas para observar, das sombras, o espetáculo de sua própria ausência.
A inteligência dessa figura já consciente da natureza voraz de quem deseja sua queda transcende a ficção e se aproxima do arquétipo do herói que conhece o jogo da vida e da morte. É o eterno retorno nietzschiano encenado em horário nobre.
E, por justiça poética, é necessário reconhecer: Debora Bloch não apenas interpretou, mas habitou Odete. Conduziu a trama com a serenidade de quem domina o caos. Sua atuação não foi mera performance; foi presença. E isso, na arte, é o mais alto grau de verdade que se pode alcançar.
E há ainda um ponto crucial: repetir o desfecho da primeira edição, o clássico quem matou Odete? seria uma rendição à mesmice da narrativa. Um retorno ao lugar-comum onde o roteiro se curva à dicotomia simplista entre heróis e vilões, bem e mal. É a velha moralidade dramatizada, previsível e domesticada, incapaz de gerar o verdadeiro espanto.
A arte, quando se repete, morre. O que fascina não é o previsível, mas o abismo. O inesperado é a verdadeira respiração da tragédia. Um final realmente inteligente seria aquele que rompe o eixo moral e mergulha no terreno do indizível.
Que instaure o caos, não como desordem, mas como potência criadora.
E Odete é o caos. Ela não se encerra em moralidades nem em enredos lineares. Reduzi-la a um crime resolvido seria empobrecer sua essência. O mais coerente com sua grandeza seria permitir que o caos triunfasse, não como vilania, mas como o inevitável retorno do imprevisível à cena.
Sinceramente, creio que Odete não morreu. Defendi essa tese assim que as imagens começaram a circular pelas redes. Pensemos: se o próprio filho dela passou treze anos desaparecido e ressurgiu vivo, por que justamente Odete, a personagem mais icônica e amada da teledramaturgia brasileira, teria que morrer, e pela segunda vez?
Recordemos aquela despedida emblemática com o Freitas, na porta do elevador. Ele, emocionado, afirmou que ela poderia contar com ele para o que precisasse, em gratidão por ela ter comprado a casa da mãe dele. Ora, tudo indica que é ele quem a resgatará.
E não esqueçamos: Odete mantém laços estreitos com o secretário de segurança, o mesmo que deve o cargo a ela. Isso é o retrato puro do Brasil. Uma construção da narrativa que dialoga com a nossa própria realidade política e social.
Manter Odete viva é, portanto, não apenas coerente com o universo da trama, mas também com a essência do país. Afinal, o nome da novela é Vale Tudo, e a primeira versão atingiu índices históricos de audiência, ultrapassando os 80 pontos, um feito praticamente inalcançável hoje, na era da internet e da fragmentação midiática. Mas, talvez, um final triunfante de Odete chegue pelo menos perto dos 80.
Em suma: seria uma escolha de gênio, e de rara coerência nacional, permitir que Odete sobreviva.